Dirigido por Mike Flanagan, A Vida de Chuck demonstra tanto a humanidade de Stephen King, quanto a sensibilidade de Mike Flanagan, em um épico ode à vida em si
Stephen King já demonstrou sua habilidade para construir monstros que ficam em nossa cabeça, destaco o Palhaço Pennywise e Randall Flag, o aterrorizante homem de preto, porém, muito além de um mestre do gênero, a verdadeira habilidade de King se encontra em sua habilidade de estruturar personagens completamente humanos em suas vontades e desejos, como John Coffey em À Espera de um Milagre (1996, Stephen King) ou Chuck, no conto A Vida de Chuck.
Presente na coletânea If It Bleeds (2020, Stephen King), A Vida de Chuck retrata três momentos da vida de Charles ‘Chuck’ Krantz, iniciando com sua morte e encerrando com sua infância, porém, muito além do depressivo A Morte de Ivan Lilitch (1895, Liev Tolstói), que também se inicia com a morte de seu protagonista, o conto de King é um ode aos momentos que valem a pena viver, e ao amor presente na vida.
Chuck não é um presidente, não é um vencedor do prêmio Nobel, não é um papa, ele é somente um contador, uma pessoa comum como eu e você, e esta é a sua maior força, permitindo uma maior identificação do público para com o personagem, levado à vida por um memorável Tom Hiddleston. Apesar de pequeno no grande escopo da vida, Chuck é importante, ele faz parte do universo, ele contém multidões dentro de si, capacidades de criar mundos únicos e o mais importante de tudo, apresenta capacidade de sonhar.

Carl Lumbly e Chiwetel Ejiofor em cena de A Vida de Chuck- Divulgação Neon
Para aqueles que leram o conto, A Vida de Chuck é um espetáculo a parte, apresentando trocas ipsis litteris se compararmos com a história original, porém, ampliando o universo de forma singular e cinematográfica, seja no lindo céu, na aproximação do espectador com Chuck, no aterrorizante retrato de um universo que está morrendo, e no espelho especial para aqueles que conheciam a história a priori, construindo uma relação entre o terceiro ato e o primeiro, que é difícil transmitir na literatura, porém, por meio da sétima arte, Mike Flanagan transmite com maestria.
Com um lento ritmo, e sem grandes arcos ou transformações, A Vida de Chuck não subestima a inteligência de seu espectador, muito pelo contrário, ele a incentiva. Do mesmo modo que Chuck criou o seu próprio mundo particular, tão mágico, rico e vasto, Flanagan incentiva a audiência a refletir sobre suas próprias crenças, vontades e universos. Se um homem comum como Chuck teve tanta importância, se ele conseguiu construir tantas maravilhas dentro de si, nós podemos também, e isto é reconfortante.
Acredito que existam dois grandes destaques da produção, o primeiro é o segundo ato, que tal como o conto, é composto principalmente por uma apresentação de dança e um desabafo de uma romântica, porém, a narração de Nick Offerman, os passos de dança de Tom Hiddleston, e uma mise-en-scène bem construida, levam o espectador em uma jornada única, que nos faz ter vontade de também respirar fundo, e somente dançar.
O segundo destaque é o elenco da produção, composto por muitos rostos conhecidos e amados de Hollywood, que nos levam em uma jornada otimista e única, sendo a cereja do bolo o retorno de Mia Sara para a grande tela, tão linda e marcante quanto era na época de Curtindo A Vida Adoidado (1986, John Hughes), e acrescentando um contraponto à forte presença de Mark Hamill, em um de seus papéis mais humanos.

Mia Sara e Mark Hamill em cena de A Vida de Chuck- Divulgação Neon
Em um dos trailers de divulgação, A Vida de Chuck coloca uma citação da Vanyaland que compara o filme de Flanagan com A Felicidade Não se Compra (1946, Frank Capra). Esta relação é clara, sendo ambos filmes otimistas e sobre o cidadão comum, e que ao seu final motivam o espectador a ser melhor do que é, trazendo sentimentos, e memórias únicas, para cada um que assiste, e universos individuais que são criados.
Distribuído pela Diamond Films, A Vida de Chuck estreia em 04 de setembro.
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