Wednesday, December 7, 2022

Crítica ‘Aldeotas’ | Longa leva teatro para a tela

Aldeotas é releitura cinematográfica de peça teatral homônima. É possível que haja um certo incômodo ao se começar a assistir ao filme. Principalmente se o espectador estiver mais acostumado a assistir produções norte-americanas, que seguem o modelo clássico de narrativa e recursos audiovisuais. Mas com o passar do tempo, e com o entendimento do universo do filme, ele vai se transformando diante de seus olhos. E, com efeito, tudo vai ganhando, se o espectador se permitir, ares de puro encantamento. Porque é isso que o primeiro longa-metragem dirigido por Gero Camilo faz: encanta.

Um filme teatral e poético

Como dito anteriormente, Aldeotas é releitura cinematográfica de peça teatral homônima. Escrita por Gero, Aldeotas não apenas ficou em cartaz por mais de uma década como venceu os prêmios Shell e Qualidade Brasil. Na peça, só o próprio Gero Camilo e o ator Marat Descartes em cena. No longa, também. A peça, segundo sua sinopse, “evidencia a capacidade de empregar a palavra como ferramenta essencial de um teatro voltado para o ator e a poesia”. O longa traz o mesmo objetivo. E o faz utilizando vários recursos teatrais. Gero, em seu primeiro trabalho como diretor, dispensa recursos cinematográficos e conta sua história somente com dois atores, um galpão que serve de cenário, e muitas palavras. Em um tempo em que parece que quanto mais elementos, melhor será o produto, Gero mostra que nem sempre isso é verdade. Já que traz pouquíssimos elementos e entrega uma obra de muita qualidade.

O galpão em questão fica no bairro da Mooca, em São Paulo, e o filme foi inteiro gravado lá. Com recursos de iluminação, o espectador é transportado para dias e noites ali. E o galpão se transforma em sala de aula, quarto de Levi, casa de Elias, uma represa e até em redação de um jornal literário estudantil. Com a direção de arte de Carla Caffé também é possível enxergar várias pessoas em cena, quando, na verdade, só há duas. E não é preciso mais nada além disso para se contar – e entender – essa história.

Atores em seu melhor

Aldeotas conta a história de Levi, que volta à sua cidade natal após mais de 30 anos. Essa volta, contudo, tem um motivo importante: o velório de seu melhor amigo de infância, que não via desde os 17 anos. A partir de então, o espectador volta no tempo junto de Levi e revive, com ele, marcos de sua vida com Elias, o melhor amigo. Desde os 5 anos de idade até os 17. Todas as idades são interpretadas por Gero e Marat, e é fácil identificar cada mudança. Porém, mais que pelas marcações textuais que aparecem, a identificação ocorre pelas marcas corporais feitas pelos atores. Mesmo com pouquíssimos objetos em cena ou até mesmo sem troca de figurino, é possível perceber pela forma que os atores se portam. É trabalho de ator no seu auge.

Conheça um pouco mais com o trailer:

Estreia nos cinemas

Com produção e distribuição da Gullane Entretenimento, e coprodução da Nip e Macaúba Produções, Aldeotas estreou no dia 10 de novembro na cidade de Fortaleza. A partir de 17 de novembro, estará nas salas de cinema das demais cidades brasileiras.

É um filme que fala sobre amizade e memória de um jeito leve e muito bonito, poético. Que venham mais filmes dirigidos por Gero Camilo, porque esse filme é lindo de se ver.

Ficha técnica

Aldeotas – 85min

Direção e roteiro: Gero Camilo

Elenco: Gero Camilo e Marat Descartes

Produção e Distribuição: Gullane Entretenimento

Coprodução: Nip e Macaúba Produções

Direção de fotografia: Marcelo Frotta

Direção de arte: Carla Caffé

Montagem: Helena Maura

Som direto: Luciano Raposo

Edição de som e mixagem: Daniela Turini

Figurino: Alice Alves

Maquiagem: Danilo Martinelle

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