Dirigido por Kyle Balda, As Ovelhas Detetives prova como coração e ideias bem resolvidas conseguem elevar qualquer narrativa.
Recentemente, ouvi uma analogia que não saiu da minha cabeça: “os filmes adultos estão ficando mais infantilizados, enquanto os filmes infantis estão ficando mais profundos”. Basta comparar produções como Gato de Botas: O Último Pedido (2023, Joel Crawford), com parte do catálogo do MCU, muitas vezes sustentado por humor raso e espetáculo visual, para perceber que essa inversão não é tão absurda. As Ovelhas Detetives leva essa discussão ainda mais longe.
À primeira vista, o projeto não inspira grande confiança. Balda vem de uma trajetória associada a sucessos comerciais como Meu Malvado Favorito e os filmes dos Minions, produções populares, mas raramente elogiadas por sua profundidade dramática. No roteiro, Craig Mazin apresenta uma carreira igualmente irregular, alternando entre comédias frágeis e obras mais densas como Chernobyl e The Last of Us. Ainda assim, logo nos primeiros minutos fica claro que há algo diferente aqui.
O que se apresenta inicialmente como um simples mistério à la Agatha Christie rapidamente revela uma camada emocional muito mais densa. O filme surpreende ao construir uma reflexão honesta sobre luto, memória e perda, temas que, curiosamente, e sabiamente, nunca foram sugeridos pelo marketing.

Ovelhas em cena de “As Ovelhas Detetives”- Divulgação Sony Pictures
A premissa central é tão simples quanto poderosa: as ovelhas possuem a capacidade de esquecer constantemente o que acontece ao seu redor. Esse esquecimento as protege da dor, mas também as impede de compreender a morte. A ideia funciona como metáfora direta sobre o modo como lidamos com a perda: até que ponto lembrar é necessário, e até que ponto esquecer é uma forma de sobrevivência?
É nesse ponto que As Ovelhas Detetives encontra sua maior força. Assim como em obras da Pixar como Viva: A Vida é uma Festa (2017, Adrian Molina, Lee Unkrich), há uma confiança rara em abordar temas complexos sem subestimar o público. As Ovelhas Detetives não simplifica suas questões, pelo contrário, as apresenta com sensibilidade e respeito, tanto para crianças quanto para adultos.
As relações entre as ovelhas, apoiadas em arquétipos clássicos como a heroína, o solitário e o amigo fiel, a jovem curiosa e o cordeiro do inverno criança, criam uma base emocional sólida. Há empatia genuína nessas interações, o que fortalece tanto o mistério quanto os momentos mais introspectivos. Em paralelo, o filme ainda encontra espaço para discutir preconceito e pertencimento, ampliando seu alcance temático sem parecer excessivo.
Visualmente e tonamente, a obra também se arrisca. Em alguns momentos, flerta com o horror de maneira surpreendente, evocando a tensão de A Fuga das Galinhas (2000, Nick Park, Peter Lord) ao contrastar criaturas fofas com a ameaça constante ao seu redor. Esse equilíbrio entre leveza e inquietação reforça a maturidade da narrativa.

Ovelhas em cena de “As Ovelhas Detetives”- Divulgação Sony Pictures
Nem tudo funciona com a mesma força. O núcleo humano, apesar de contar com nomes como Emma Thompson e Nicholas Braun, carece do mesmo dinamismo presente entre as ovelhas. Seus diálogos são menos inspirados, e a trama sofre com pequenas quedas de ritmo. Ainda assim, o terceiro ato recupera parte dessa energia, especialmente com a resolução do mistério.
No fim, As Ovelhas Detetives se destaca por algo cada vez mais raro: confiança em sua própria história. Sem abrir mão do entretenimento, o filme entrega uma experiência sensível, reflexiva e surpreendentemente madura. É uma animação que entende seu público, e ainda mais importante, não tem medo dele.
Distribuído pela Sony Pictures, As Ovelhas Detetives estreia em 07 de abril.
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