Dirigido por Susanne Bier, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor amplia o universo e entrega uma história simples, mas, acima de tudo, muito divertida
Da mesma forma que seu predecessor, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor funciona melhor quando analisado como um produto isolado do que como uma adaptação literária. Afinal, se considerarmos o livro de Alice Hoffman que originou as produções, a expressão “livremente inspirado em” parece quase inevitável.
Seja pela importância do arco de Tia Jet e Tia Franny presente em As Regras do Amor e da Magia (2017, Alice Hoffman), que não tivemos a oportunidade de conhecer em nenhuma produção audiovisual, ou pelo dinamismo muito mais acentuado de seus personagens na literatura, o sentimento de ausência para quem conhece os livros é constante. Ainda assim, dentro das condições que lhe são oferecidas, Susanne Bier estrutura um filme acima da média e, principalmente, bastante consciente daquilo que deseja ser.
Deixando para trás a paleta alaranjada e novelesca da versão dirigida por Griffin Dunne, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é cheio de vida em praticamente cada canto. A produção também amplia e explora a magia de maneira muito mais generosa do que o primeiro filme. Livros proibidos, besouros da morte, feitiços e repressões convivem em harmonia com um universo visual saturado, que transforma a própria estética em parte da experiência mágica.

Sandra Bulllock, Maise Williams, Joey King e Nicole Kidman em cena de “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor”- Divulgação Warner Bros
Essa construção encontra seus melhores momentos quando a fotografia e os planos grandiosos realmente abraçam o fantástico, como na sequência de Gideon entre pétalas de flores caindo em câmera lenta, na morte de Jet ou na grande batalha final. Existe um cuidado técnico para fazer com que esse universo pareça vivo, sem abandonar a realidade dramática que funciona como seu verdadeiro núcleo.
As paisagens do Reino Unido, a trilha sonora repleta de referências musicais e o trabalho de figurino e direção de arte contribuem para essa sensação de mundo expandido, acrescentando pequenos detalhes que enriquecem a mitologia dos Owens. Novamente acompanhando essa família, a narrativa lida com as consequências da maldição que ainda a persegue e com os impactos provocados pela decisão de Sally de esconder de Kylie e Antonia a verdadeira origem de sua linhagem.
Em termos de tom, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é muito mais maduro e dramático do que seu predecessor. A produção não tem medo de levar suas consequências até os últimos momentos, seja com a morte de Jet logo no início ou com o rompimento da harmonia familiar, solucionado apenas quando Sally finalmente abraça sua própria herança sem medo ou receio. É justamente aí que reside a principal mensagem do filme: não existe liberdade verdadeira enquanto alguém tenta fugir daquilo que é.
Mantendo uma coerência curiosa com o filme de 1998, porém, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor também tropeça no ritmo. Orbitando entre o drama familiar, a fantasia e a comédia romântica, a produção transita rapidamente entre diferentes tons. O resultado é mais orgânico do que no filme anterior, mas ainda existem sequências que parecem longas demais e outras que mereciam maior desenvolvimento, especialmente aquelas envolvendo Antonia e Franny.

Sandra Bulllock em cena de “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor”- Divulgação Warner Bros
À medida que mergulhamos nesse universo, Kylie, interpretada por Joey King, conduz boa parte do arco dramático; Sally, vivida por Sandra Bullock, assume a jornada pessoal de descoberta; enquanto Gillian, de Nicole Kidman, funciona como um bem-vindo alívio cômico. O problema é que a ampliação da mitologia nem sempre acompanha o desenvolvimento necessário para que ela seja compreendida.
Diferentemente de O Livro da Magia (2022, Alice Hoffman), livro que inspirou o filme, aqui não temos todo o contexto necessário para compreender a importância de determinados objetos, símbolos e elementos desse universo. Em alguns momentos, eles parecem inseridos apenas para ampliar a sensação de grandiosidade, produzindo no espectador uma reação quase inevitável: “tem muita coisa acontecendo aqui, mas é melhor aceitar antes que eu me perca”.
Com seus altos e baixos, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor reduz o arco de Antonia, interpretada por Maisie Williams, a quase nada e entrega um vilão pouco inspirado e apresentado tardiamente. Em contrapartida, o professor Ian Wright é uma adição rica e potente, especialmente pela presença de Lee Pace, que consegue transformar um personagem potencialmente secundário em uma das figuras mais interessantes da produção.
No fim das contas, algumas escolhas parecem mais interessadas em preservar a nostalgia e explorar o carisma natural de Bullock e Kidman do que em abraçar completamente as nuances e possibilidades desse universo. É como se o filme estivesse diante de uma casa cheia de cômodos, mas escolhesse visitar apenas aqueles que já conhecemos.
Ao final, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é um espetáculo mágico que honra suas raízes, diverte e expande um universo que ainda possui muito potencial. Poderia, entretanto, ter confiado mais em sua própria identidade e se sustentado por si só, em vez de beber tanto de uma fonte nostálgica que, para início de conversa, nunca foi tão grande assim.
Distribuído pela Warner Bros. Pictures, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor chega aos cinemas no dia 10 de setembro.
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