Dirigido por Eliezer Lipnik e Joana di Carso, De Volta à Bahia se propõe a ser uma comédia romântica, mas acaba testando a paciência de abstração, e a tolerância à vergonha alheia, do espectador.
Comédia romântica, o abraço ao brega e uma cidade rica visual e culturalmente como a Bahia seriam, em tese, ingredientes suficientes para uma produção divertida. No entanto, De Volta à Bahia se perde ao desfocar do que realmente deveria ser, desviando o foco do que deveria importar.
Em diversos momentos, a obra se assemelha a um comercial institucional, com belas imagens de drone que exibem mares e paisagens paradisíacas, mas pouco contribuem para a narrativa central. A história acompanha Maya e Pedro, dois surfistas, respectivamente órfã de mãe e órfão de pai, que sonham em disputar um campeonato de surfe e acabam se apaixonando enquanto lidam com traumas do passado e decisões sobre o futuro.

Bárbara França em cena de “De Volta à Bahia”- Divulgação Oficial
Apesar da premissa promissora, De Volta à Bahia não encontra sustentação narrativa. O filme se inicia com um passeio de drone por São Paulo, seguido por um podcast artificial, intercalado com imagens de pessoas assistindo ao programa em seus celulares. Este estranhamento se soma a uma mise en scène excessivamente plástica e desconfortável, sensação que se mantém ao longo de toda a projeção, como quando seus personagens vão em uma barraquinha de açaí, e percebemos nitidamente uma construção feita exclusivamente para o filme, e não algo verossímil, como se estivessem construindo um comercial.
A estética publicitária se repete com a exibição constante de pontos turísticos como o Pelourinho e o Farol da Barra, além de referências à cultura local, como o acarajé. Essa exaltação, porém, é tão forçada que produz o efeito oposto. A cena final, com o pôr do sol ao fundo e uma narração exageradamente brega, sintetiza bem essa artificialidade.
Diferente de Ó Paí, Ó (2007, Monique Gardenberg), De Volta à Bahia não imprime personalidade à cidade que escolhe como cenário. Os planos de drone esvaziam o sentido dramático do espaço, enquanto a trilha sonora repetitiva de André Whoong impede o filme de respirar. Falta silêncio, falta pausa, falta mostrar o concurso de surf ao final e pior de tudo: falta responder por que deveríamos torcer por esse casal.

Mariana Freire e Natalia Santos em cena de “De Volta à Bahia”- Divulgação Oficial
Além do fato de Pedro salvar Maya de um afogamento e de ambos serem atraentes, não há construção orgânica para o romance. Ainda assim, personagens secundários insistem em questionar se o casal já se beijou, e conflitos vazios surgem para impedir que fiquem juntos, ao invés de analisar quem realmente importa para a história. Se os protagonistas carecem de profundidade, os coadjuvantes são ainda mais problemáticos: do mentor com discurso de coach à influencer sem função narrativa clara, quase todos soam vazios. Os pais dos protagonistas até se destacam, mas suas relações também parecem artificiais.
Os arcos narrativos são pouco desenvolvidos, e a história é frequentemente abandonada em favor desse falso comercial da Bahia, que acaba prestando um desserviço ao estado. Salvador é uma cidade viva e pulsante, algo que o filme, apesar das boas intenções, não consegue transmitir, tornando-se esquecível.
Esteticamente, a iluminação excessivamente limpa elimina textura e profundidade. Os personagens funcionam como arquétipos higienizados: a garota bonita e traumatizada e o rapaz bonito que deseja ver o mundo. Crescemos assistindo novelas e aceitamos exageros narrativos, mas não personagens vazios, cenários meramente bonitos, uma narrativa desfocada e uma falsidade estética constante, exatamente o que De Volta à Bahia entrega.
Distribuído pela Swen Entretenimentos, De Volta à Bahia estreia nos cinemas no dia 5 de março.
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