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Aleksandr Kuznetsov em cena de "Dois Procuradores"- Divulgação Oficial
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Dois Procuradores’ expõe a impotência humana diante do totalitarismo

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 27 de janeiro de 2026
6 Min Leitura
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Aleksandr Kuznetsov em cena de "Dois Procuradores"- Divulgação Oficial
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Dirigido por Sergei Loznitsa, Dois Procuradores demonstra o perigo do totalitarismo por meio da quebra de realidade de um cidadão comum.

Produções que apresentam protagonistas que descobrem que sua realidade é muito mais sombria do que aparenta não são algo original na ficção. Desde antes de obras como Invasores de Corpos (1979, Philip Kaufman), esse mecanismo narrativo já foi amplamente explorado. No entanto, quando uma produção como Dois Procuradores utiliza este recurso, o medo transmitido é consideravelmente maior do que o de qualquer ficção científica. Isso porque, acima de tudo, trata-se de uma obra histórica, baseada em fatos reais e, mais importante, ainda assustadoramente presente tantos anos depois.

Dois Procuradores se passa na União Soviética de 1937, durante o auge do governo de Joseph Stalin. A produção acompanha o recém-nomeado promotor local Alexander Kornev, um bolchevique dedicado e íntegro que faz todo o possível para encontrar um prisioneiro vítima de agentes corruptos da polícia secreta, a NKVD. Ao perceber que sua noção do governo soviético está equivocada, Alexander parte em uma busca por justiça que o leva até o gabinete do procurador-geral em Moscou, percebendo, no processo, sua total impotência diante de um regime totalitário.

Aleksandr Kuznetsov em cena de "Dois Procuradores"- Divulgação Oficial

Aleksandr Kuznetsov em cena de “Dois Procuradores”- Divulgação Oficial

Se existiu um governo totalitarista que soube esconder seus crimes de forma eficiente, este foi o de Joseph Stalin. Enquanto, para o mundo exterior, e para muitos honrados bolcheviques da própria URSS, aquele parecia ser o melhor regime governamental da época, a verdade era muito mais violenta e severa. Nesse contexto, ou se fazia vista grossa, ou se era incriminado e condenado da mesma forma. Não à toa, estima-se mais de 700 mil mortes, além de milhões de presos, durante o chamado Grande Expurgo, período entre 1936 e 1938.

Somente em 1956, Nikita Khrushchev denunciaria oficialmente os crimes de Stalin por meio do chamado “Discurso Secreto”, chocando o mundo. Entre os impactados estavam artistas brasileiros como Jorge Amado, que até então defendia o ditador como uma figura confiável para o comunismo. Dois Procuradores, porém, se passa em um momento anterior a essas revelações, quando a tensão era constante e a violência institucionalizada. Alexander representa o indivíduo que deseja fazer o certo apenas para ser punido por isso, protagonizando uma jornada de fim inevitável para qualquer um minimamente familiarizado com o período retratado.

O conhecimento histórico facilita a compreensão de diversos simbolismos presentes na obra, especialmente quando são mencionados nomes fundamentais da primeira metade do século XX, como Lenin e Trotski. Ainda que pouco explorados, esses personagens funcionam como referências pressupostas ao espectador. Da mesma forma, momentos mais íntimos, como o encontro com o combatente ferido, ganham um peso adicional quando observados à luz desse contexto histórico.

Visualmente, a escolha pelo formato 4:3 aproxima a audiência desse universo opressivo, marcado por uma paleta de cores em tons pastéis e sombrios. Essa estética reforça um clima constante de tensão, isolamento e desespero, perceptível para todos, menos para Alexander. À medida que o protagonista passa a enxergar a verdadeira natureza do regime que defende, ele parte em uma cruzada por justiça em uma batalha que jamais poderia ser vencida.

Aleksandr Kuznetsov em cena de "Dois Procuradores"- Divulgação Oficial

Aleksandr Kuznetsov em cena de “Dois Procuradores”- Divulgação Oficial

Em termos de ritmo, a produção se arrasta especialmente em seu primeiro ato. Até a tomada de consciência de Alexander, a narrativa avança de forma lenta e deliberada, priorizando a construção do contexto de opressão. Sons fora de campo ampliam essa sensação de maneira semelhante ao que Jonathan Glazer realizou em Zona de Interesse (2023), intensificando a angústia da experiência. Conforme o jovem bolchevique se torna mais ativo em sua jornada, o filme ganha maior dinamismo, utilizando o silêncio e o não dito como ferramentas para representar um sistema opressor por meio de uma construção estética claustrofóbica, que cresce aceleradamente até o mais claro dos fins.

Ao final, Dois Procuradores utiliza o passado como uma lente para observar um presente cada vez mais familiar. Seja na Rússia contemporânea, seja em países considerados de primeiro mundo, como os Estados Unidos, a obra ecoa alertas sobre líderes autoritários que compartilham de grandes egos, ainda que lhes falte a capacidade, ou o contexto histórico, para estruturar um dos regimes mais obscuros da história da humanidade, e que até hoje ainda apresenta seus ecos.

Distribuído pela Retrato Filmes, Dois Procuradores estreia nos cinemas no dia 5 de fevereiro de 2026.

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Tags:CinemacríticaDois Procuradores
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