O espírito de Rocky: Um Lutador parece ter encontrado um novo ringue. Eu Sou o Rocky (I Play Rocky), filme dirigido por Peter Farrelly, foi ovacionado durante sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no último sábado (12).
A sessão terminou com o público gritando “Rocky! Rocky!”, em uma reação que colocou o longa entre os filmes cotados para disputar o prêmio de Escolha do Público do festival.
Distribuído no Brasil pela Diamond Films, o filme chega aos cinemas brasileiros em 19 de novembro. A produção conta uma história que, de certa forma, repete a estrutura do próprio clássico de 1976: um personagem desacreditado insiste em seu sonho quando quase ninguém acredita nele.
A diferença é que, desta vez, o azarão é o próprio Sylvester Stallone.
Eu Sou o Rocky acompanha o período em que o então jovem ator tentava transformar em realidade o roteiro que havia escrito para Rocky. Sem o prestígio que conquistaria posteriormente, Stallone enfrentava recusas, dificuldades financeiras e obstáculos para conseguir produzir e protagonizar sua história.
O filme transforma essa batalha pela realização do projeto em uma narrativa de superação. E o resultado chamou atenção justamente por reproduzir, fora do ringue, o mesmo sentimento que tornou Rocky uma das histórias de azarão mais conhecidas do cinema.
O grande destaque das primeiras críticas foi Anthony Ippolito, conhecido por A Oferta, que interpreta Stallone.
A semelhança não está apenas na maquiagem ou no figurino. Os críticos destacaram a maneira como o ator reproduz voz, postura, gestos e características físicas do astro.
Radheyan Simonpillai, do The Guardian, afirmou que Ippolito não se limita a interpretar Stallone interpretando Rocky Balboa.
O crítico destacou que o visual, a fisicalidade e a atuação são tão precisos que a sensação é de estar diante do próprio Stallone, inclusive durante momentos em que o personagem revive situações que fazem parte da memória coletiva associada a Rocky.
A avaliação também chama atenção para a relação entre o ator real e o personagem que o tornou famoso.
Segundo Simonpillai, a atuação de Ippolito torna difícil separar Stallone de Rocky. A impressão permanece mesmo em cenas que mostram o jovem ator em situações pessoais e profissionais antes da produção do filme.
Pete Hammond, do Deadline, seguiu pelo mesmo caminho e classificou a atuação como uma representação autêntica.
Para o jornalista, Ippolito não faz uma simples imitação. Ele “habita” Stallone e consegue reproduzir sua presença de maneira convincente.
A avaliação de Hammond resume o impacto da produção: a história da criação de Rocky acaba se transformando em uma espécie de triunfo à própria maneira de Rocky.
O grande trunfo de Eu Sou o Rocky está na ironia de contar a origem de um dos maiores filmes de superação do cinema justamente como uma história de superação.
Em Rocky, o protagonista precisa provar que pode enfrentar o campeão mundial Apollo Creed.
Na vida real, Stallone precisou primeiro provar que seu roteiro merecia existir e que ele deveria ser o responsável por interpretar o personagem principal.
O filme acompanha o ator em um período de dificuldades profissionais, depois de enfrentar testes frustrados e trabalhos que não correspondiam às suas ambições.
A trajetória passa também pela mudança para Los Angeles e pela tentativa de criar as próprias oportunidades em uma indústria que ainda não enxergava nele o astro que viria a se tornar.
Essa perspectiva dá ao filme uma vantagem narrativa importante. O público conhece o resultado antes mesmo de a história começar.
Todos sabem que Rocky será produzido, que Stallone interpretará o protagonista e que o filme se tornará um fenômeno mundial.
Mesmo assim, segundo as primeiras críticas, Farrelly consegue criar tensão a partir do caminho percorrido até aquele momento.
A crítica Kate Erbland, do IndieWire, observou justamente esse aspecto. Para ela, o sucesso de Rocky já é conhecido, mas Eu Sou o Rocky está mais interessado em mostrar a jornada que tornou esse sucesso possível.
O filme, portanto, não depende apenas da nostalgia. Seu principal conflito está na tentativa de fazer um projeto improvável sair do papel.
A direção de Peter Farrelly adiciona outro elemento à produção.
Conhecido por comédias como Debi & Lóide, Kingpin e Quem Vai Ficar com Mary?, além do vencedor do Oscar Green Book: O Guia, Farrelly utiliza o caos da indústria cinematográfica como fonte de humor.
As primeiras críticas destacam justamente os momentos em que o filme mostra as negociações, dúvidas e decisões que envolvem a realização de uma produção.
A dificuldade para convencer produtores, as discussões criativas e a imprevisibilidade dos bastidores ajudam a criar situações cômicas.
Ao mesmo tempo, o humor não elimina o drama.
A história de Stallone continua sendo construída em torno da insistência de alguém que se recusa a abandonar uma ideia, mesmo quando as circunstâncias apontam para o fracasso.
Essa combinação parece ser uma das razões pelas quais o filme conseguiu conquistar a plateia de Toronto.
O elenco recria figuras fundamentais de Rocky
Anthony Ippolito não está sozinho na missão de reconstruir o período que antecedeu o clássico.
O elenco inclui AnnaSophia Robb como Sasha Czack, companheira de Stallone, além de Matt Dillon como o pai do ator.
Toby Kebbell interpreta o produtor Robert Chartoff, enquanto P.J. Byrne vive Irwin Winkler, outro dos responsáveis pela produção de Rocky.
Jay Duplass interpreta o diretor John G. Avildsen, cineasta responsável pelo filme original.
Stephan James assume o papel de Carl Weathers, ator que interpretou Apollo Creed na franquia Rocky.
A produção também apresenta versões de outros nomes associados ao longa de 1976, incluindo Talia Shire, Burgess Meredith e Burt Young.
Stephan James recebeu elogios pela maneira como reproduz a presença de Carl Weathers, enquanto o conjunto do elenco foi apontado como um dos pontos fortes do filme.
A relação entre os personagens também permite que o público veja como diferentes profissionais foram importantes para que o projeto de Stallone se tornasse realidade.
Stallone aprovou Eu Sou o Rocky
Um dos aspectos mais curiosos da produção envolve justamente a reação do homem que está no centro da história.
Peter Farrelly revelou que Sylvester Stallone assistiu ao filme e aprovou o resultado.
“Ele amou”, contou o diretor em entrevista à Entertainment Weekly.
Farrelly explicou que ficou nervoso com a possibilidade de Stallone assistir ao filme sozinho, porque acreditava que a experiência poderia ser diferente daquela proporcionada por uma sessão com público.
“Esse filme, se você assistir com uma multidão, você sente”, explicou o diretor.
Segundo Farrelly, Stallone telefonou logo depois de assistir à produção.
A aprovação também foi importante antes mesmo do início das filmagens.
Farrelly afirmou que só aceitaria dirigir o projeto se Stallone autorizasse sua realização. O diretor pediu que o astro lesse o roteiro e deixasse claro se apoiava a produção.
“Eu não vou fazer isso a menos que você ame e queira que façamos”, teria dito Farrelly ao ator.
Stallone respondeu que queria que o filme fosse realizado.
O próprio astro já havia demonstrado apoio publicamente. Em julho, publicou o trailer de I Play Rocky em suas redes sociais e parabenizou elenco e equipe.
“Todas as histórias têm um começo, e estou animado para ver esta ganhar vida. Parabéns ao elenco e à equipe de Eu Sou o Rocky. Continue lutando”, escreveu Stallone.
A relação entre o protagonista real e a produção torna a aprovação especialmente relevante. Afinal, trata-se de uma história construída a partir de uma das experiências mais importantes de sua carreira.
Críticas e primeiras impressões colocam filme entre os destaques do ano
A recepção em Toronto foi majoritariamente positiva.
No Rotten Tomatoes, Eu Sou o Rocky apareceu inicialmente com 74% de aprovação entre os críticos, considerando 19 avaliações. A nota ainda pode mudar à medida que novas críticas forem publicadas.
O número fica abaixo dos 93% registrados pelo Rocky original, mas supera a recepção crítica de alguns capítulos da franquia.
Rocky III possui 66%, enquanto Rocky IV aparece com 38% e Rocky V com 31%.
Por outro lado, a nova produção fica abaixo de Rocky Balboa, com 78%, e dos filmes da franquia Creed, que alcançaram 95%, 83% e 89%, respectivamente.
O mais significativo, entretanto, está no conteúdo das críticas.
A avaliação do ScreenRant classificou o filme como uma das melhores produções do ano até o momento e deu nota 9 de 10.
A crítica destacou a capacidade de Farrelly de reproduzir o sentimento de vitória e inspiração provocado pelo filme de 1976.
Outro aspecto elogiado foi a atuação de Ippolito, considerada capaz de ultrapassar a simples caracterização física.
A comparação com atores que fizeram transformações marcantes para interpretar pessoas reais mostra o tamanho da expectativa criada em torno da performance.
Existe ainda uma camada interessante em Eu Sou o Rocky: o filme não fala apenas sobre Stallone.
Ele fala sobre o processo de criação de uma obra que ninguém sabe, naquele momento, se funcionará.
Essa perspectiva aproxima a produção de outros filmes que transformaram os bastidores de obras conhecidas em histórias próprias.
A diferença é que Eu Sou o Rocky tem uma vantagem emocional particular. O público já conhece a importância do filme que está sendo criado.
Cada obstáculo enfrentado pelo personagem ganha peso porque sabemos o que está em jogo.
A história também reforça uma das características mais duradouras de Rocky: a ideia de que vencer nem sempre significa ser o melhor.
Às vezes, significa simplesmente conseguir chegar até o fim sem desistir.
É justamente essa lógica que parece ter conquistado os espectadores em Toronto.
O filme transforma o processo de criação de Rocky em outro filme de azarão. E, pelas primeiras reações, a estratégia funcionou.
Rocky completa 50 anos em 2026
A chegada de Eu Sou o Rocky aos cinemas acontece em um momento simbólico.
Rocky: Um Lutador completa 50 anos em 2026.

Lançado em 1976, o filme dirigido por John G. Avildsen se tornou um fenômeno cultural, conquistou três Oscars, incluindo Melhor Filme, e deu origem a uma das franquias mais conhecidas do cinema.
A história de Rocky Balboa continuou em cinco sequências e posteriormente ganhou uma nova fase com os filmes Creed, protagonizados por Michael B. Jordan.
A longevidade da franquia ajuda a explicar a expectativa em torno de Eu Sou o Rocky.
Mas a produção parece querer ir além de uma celebração nostálgica.
Ao voltar ao período em que Stallone ainda era um ator desacreditado tentando fazer seu roteiro chegar às telas, o filme procura mostrar que a história de Rocky começou muito antes do primeiro soco.
Começou com alguém disposto a apostar tudo em uma ideia.
E talvez seja justamente por isso que a reação de Toronto tenha sido tão significativa.
O público não estava apenas vendo a origem de um personagem famoso. Estava acompanhando a história de alguém que precisou lutar para ter o direito de contar aquela história.
Serviço
Eu Sou o Rocky (I Play Rocky)
Direção: Peter Farrelly
Elenco: Anthony Ippolito, AnnaSophia Robb, Matt Dillon, Stephan James, Toby Kebbell, P.J. Byrne, Jay Duplass, entre outros.
Estreia no Brasil: 19 de novembro de 2026
Distribuição no Brasil: Diamond Films
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