Dirigido por Denise Fernandes, Hanami constrói com delicadeza uma jornada que exige, acima de tudo, inteligência emocional e entrega do espectador para que sua proposta seja plenamente assimilada.
No cinema contemporâneo, há uma vertente realista que privilegia experiências subjetivas, deslocando o espetáculo e a narrativa tradicional para segundo plano em favor de um percurso mais contemplativo. Esse tipo de obra, muitas vezes associada ao cinema oriental, aposta no silêncio, no tempo e na observação, e, ao fazê-lo, também testa a paciência do público. É nesse território que Hanami se insere.
Ambientado em uma ilha vulcânica isolada, lugar que todos parecem desejar abandonar, o filme acompanha Nana, uma jovem que permanece ali quase por inércia. Sua mãe, Nia, desapareceu pouco após seu nascimento, levando consigo uma doença envolta em mistério. Quando uma febre devastadora acomete a jovem, ela é levada ao sopé de um vulcão em busca de cura. Ali, entre ecos de segredos antigos, descobre por meio de histórias fantásticas, um espaço onde sonho e realidade se entrelaçam. Anos depois, já adolescente, enfrenta novo abalo com o retorno inesperado da mãe, trazendo respostas capazes de reorganizar tudo o que conhecia.

Cena de “Hanami”- Divulgação Imovision
A jornada de reconexão e maternidade é atravessada por pequenas fábulas que remetem, em tom, a Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003, Tim Burton), sobretudo pelo modo como o fantástico se infiltra na experiência cotidiana. A amizade entre um morador local e um imigrante na base do vulcão, ou mesmo a explicação sobre “hanami”, uma chuva bonita que não se explica, apenas se sente, reforçam essa dimensão sensorial. O próprio filme se define assim: mais experiência do que explicação.
Com fotografia limpa e expansiva, a obra aposta em um rigor estético que cresce no silêncio, apoiado por uma trilha sonora pontual e discreta. No entanto, quando o visual se sobrepõe à progressão dramática, o ritmo se dilui. Em determinados momentos, o longa se aproxima mais de um conto literário do que de uma experiência cinematográfica plenamente orgânica, e neste momento faria falta um fio condutor melhor direcionado, do que uma jornada de amadurecimento que pelo seu tom de realismo, não apresenta tantos diferentes beats narrativos.

Cena de “Hanami”- Divulgação Imovision
Ao longo de Hanami, existem ecos de O Filho de Mil Homens (2025, Daniel Rezende) por conta de seu flerte intimista com o fantástico e no cenário à beira-mar, mas aqui o lirismo não se converte em potência narrativa constante, e sim com algo bem mais sutil, que poderia ter crescido muito mais em escala. Apesar de liberar um leque de emoções, especialmente quando entendemos como essas fábulas auxiliaram Nana em sua própria trajetória, o filme não encontra variações suficientes para se manter memorável em uma revisita.
Majoritariamente silencioso, Hanami acompanha uma protagonista cuja transformação é interna e quase imperceptível. Ao optar por não enfatizar grandes arcos dramáticos, a narrativa privilegia estados de espírito, mas sacrifica impacto. Com exceção do retorno de Nia, que encerra a história de forma circular e coerente, o percurso central oscila entre momentos de beleza sensível e trechos que poderiam alcançar maior densidade caso tivessem coragem para ousar um pouco mais, e estruturado uma narrativa com maior potência.
Vencedor do Prêmio de Melhor Filme Internacional pelo Júri na Mostra Internacional de São Paulo, Hanami estreia nos cinemas em 26 de fevereiro, com distribuição da Imovision.
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