Dirigido por Huo Meng, Living the Land explora os ritos de passagem em um vilarejo chinês em constante mudança, construindo uma jornada que, apesar de rica culturalmente, testa a paciência do espectador.
Dentro do cinema de autor, não é raro um cineasta decidir retratar algum momento de sua infância para discutir a contemporaneidade — ou apenas como forma de expurgar seus demônios por meio de um olhar nostálgico e empático. De Amarcord (1973, Federico Fellini) a Malèna (2001, Giuseppe Tornatore), essas produções costumam se fortalecer por um olhar ministrado por tons lúdicos. Porém, quando surge uma obra tão realista quanto Living the Land, focando não em personagem central e bem definido, mas em uma comunidade como um todo e estruturado como uma coletânea quase episódica, o filme acaba virando um teste desnecessário para a audiência.
A produção de Huo Meng entra justamente na parte do “expurgar seus demônios”, retratando, em 1991, o interior da China e as contradições entre o progresso inevitável, tecnológico e cultural, e tradições fortes dentro do sistema tradicional. Assim, o que mais existe ao longo de 2h10 são situações que lembram uma docuficção observacional, na qual a audiência acompanha em primeira mão ritos que vão do luto ao casamento, sempre de modo lento e contemplativo.
Living the Land se importa mais com o retrato de seus personagens, comumente representados juntos em cena, do que com o espectador que assiste. E, apesar de interessante no começo, na medida em que expõe hipocrisias presentes em rituais já ultrapassados, como o casamento e o estigma da virgindade, não há catarses ou momentos suficientes para justificar sua duração. Mesmo com a tela constantemente preenchida por belezas naturais e planos-sequência que demonstram a habilidade técnica, o maior problema é, de fato, ritmo e direcionamento narrativo.

Cena de “Living the Land”- Divulgação Autoral Filmes
Apesar de extremamente pessoal para o diretor, e relevante para uma contemporaneidade em que “o progresso” é sempre indicado como caminho do futuro, enquanto tradições são apagada, principalmente no interior, Living the Land é forte para seu artista, mas apresenta potencial maior como retrato documental do que como obra de ficção.
Existem arcos pouco explorados, como o casamento de Liu Xiuying, uma virgem solteira de quase 30 anos, que poderiam render um excelente filme derivado. Mas, quando o foco se desloca para o olhar do jovem Xu Chuang, questões como essa se apagam em prol de um retrato passivo e contemplativo, no qual a audiência atua como uma mosquinha observando os acontecimentos se desenrolarem.
Como primeira direção de Huo Meng, a produção poderia facilmente caber em 1h30, ou se valorizar com o foco em apenas um dos agricultores, em vez de construir uma comunidade inteira que desgasta e dificulta a empatia dentro desse personagem “comunal”. O resultado é uma crítica social forte, mas que, até sua conclusão sobre os perigos da contemporaneidade, faz a audiência piscar diversas vezes enquanto espera algo acontecer.

Cena de “Living the Land”- Divulgação Autoral Filmes
Nem toda produção necessita de movimento, grandes acontecimentos ou efeitos especiais mirabolantes. Porém, na medida em que o artista se compromete a construir um filme, existem algumas regras mínimas a seguir, mesmo dentro de um cinema contemporâneo que foge do clássico em quase todas as frentes. Um filme nunca é só um filme.
A sensação que fica ao final de Living the Land é a força da produção para seu diretor e para a comunidade de agricultores tão respeitosamente retratada. Para o público, porém, apesar de imagens fortes e contemplativas, de uma mensagem clara e de uma memória pontual ou outra, pouco sobra de um filme que poderia ter vindo realmente na jugular com sua crítica, mas opta por outro caminho bem mais passivo.
Distribuído pela Autoral Filmes, Living the Land estreia nos cinemas no dia 05 de fevereiro.
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