Dirigido por Nathan Hertz, Magras! beira o horror e o humor em retrato sarcástico sobre a indústria da beleza e o culto à magreza
Em festivais de cinema, especialmente quando se assiste a dezenas de produções em sequência, é comum que a memória acabe reduzida a um detalhe isolado de cada filme. No caso de Magras!, o detalhe que ficou foi mais do que suficiente: um body horror, sendo esta lembrança mais do que suficiente para alimentar a curiosidade e preparar o terreno para uma experiência intensa, sendo este um dos maiores trunfos da produção: quanto menos se souber sobre, maior será o impacto ao assistir.
Com pouco menos de uma hora e meia de duração, Magras! se mostra surpreendentemente ambicioso. Em sua narrativa compacta, o filme articula discussões sobre a indústria da beleza, dismorfia corporal, compulsão alimentar, amor próprio e arrependimentos do passado. São temas que não soam inéditos dentro do cinema contemporâneo, afinal, A Substância (2024, Coralie Fargeat), explorou de maneira recente e igualmente contundente o desejo de transformação corporal, porém, Hertz imprime uma assinatura própria ao tema.
O maior diferencial de Magras! em comparação a outras produções temáticas semelhantes, se encontra na combinação entre surrealismo, horror e humor, que nunca se leva totalmente a sério, diferente de A Substância que se leva até demais, assim, tornando a produção extremamente eficiente dentro daquilo que se propõe, fazendo o ridículo se converter em sátira, e o grotesco se transformar em cômico, num casamento orgânico de tons.

Cena de Magras!- Divulgação 27º Festival do Rio
Esteticamente, Hertz acerta ao apostar em uma paleta vibrante e em uma atmosfera natalina que, em contraste, intensifica o horror. A fotografia alterna proporções de tela para transmitir variações emocionais, recurso que funciona de maneira eficaz e que demonstra um dedo pesado da direção, havendo uma clara preocupação com a mise-en-scène, mas é nos delírios de Penny e na violência assustadora de Penélope que o filme atinge seu auge. A escolha de escalar as gêmeas Melissa e Michelle Macedo nos papéis principais revela-se decisiva: a presença física de duas atrizes idênticas confere naturalidade ao jogo de espelhos e às cenas de confronto, se tornando muito mais visceral.
A escolha do clima natalino não foi por acaso, sendo um cenário propício para acentuar os contrastes entre a leveza da festa e o peso da obsessão estética de Penny, uma retocadora de fotos que sofre com compulsão alimentar e dismorfia corporal. Ao experimentar uma droga experimental, conquista, por um lado, o corpo que sempre desejou, mas, por outro, dá origem a um duplo obscuro: Penélope. O conflito entre ambas pelo domínio do corpo não só sustenta a narrativa, como serve de metáfora direta, e nem um pouco sutil, do embate entre a imagem idealizada e a realidade imperfeita.
O filme costura horror e humor com habilidade, indo sem receio para o insuportável e o abjeto, sobretudo quando Penny passa pela “troca de pele”, experiência que provoca desconforto principalmente em quem já enfrentou problemas dermatológicos, mas mesmo nestes momentos, Hertz não recai na exploração gratuita: há uma empatia latente na forma como o corpo em sofrimento é retratado, e o exagero destes acontecimentos ocasiona o humor claro e direto.
Apesar de perder ritmo em seu miolo, Magras! reencontra força no clímax, quando delírio e realidade se confundem definitivamente, enquanto assistimos a luta final entre Penny e Penélope, afinal, no momento que Penny toma o remédio, sabemos que o desfecho seria desastroso, mas ainda assim permanecemos fascinados pelo espetáculo, torcendo para que o caos somente cresça, algo entregue com gosto.
O uso quase irônico de Jingle Bell Rock é a cereja do bolo, sendo quase o hino não dito da produção, mesmo com todo o horror acontecendo, that’s the jingle bell rock, reforça a vocação satírica da obra. Hertz não pretende construir um horror puro, mas sim uma experiência híbrida, visualmente atraente, bem atuada e carregada de momentos memoráveis.

Cena de Magras!- Divulgação 27º Festival do Rio
Magras! foi exibido no 27º Festival do Rio como um daqueles filmes que, mesmo sem grandes pretensões, ficam na memória do público, tornando-se uma pequena joia dentro do circuito de festivais, um retrato ao mesmo tempo ácido e divertido que pode gerar desde discussões profundas, até um entretenimento muito bem aceito.
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