Dirigido por John Patton Ford, Manual Prático da Vingança Lucrativa utiliza o humor negro e uma montagem ágil para contar uma história que poderia ter sido melhor estruturada.
Algum tempo atrás, em minha crítica de Você Só Precisa Matar (2025, Ken’ichirô Akimoto), discuti a dificuldade enfrentada por filmes que nascem sob a sombra de uma referência inevitável, tornando-se alvos automáticos de comparação. Ao falar de Manual Prático da Vingança Lucrativa, entramos novamente nesse território, com uma diferença crucial.
Livremente inspirado em As Oito Vítimas (1949, Robert Hamer), que por sua vez adapta a autobiografia do criminoso Israel Rank (1907), o filme não é um remake direto, mas compartilha semelhanças narrativas suficientes para tornar o paralelo inevitável. E fugir dessa sombra, especialmente quando o longa de Hamer ocupa o 6º lugar na lista do British Film Institute, exige mais do que atualização estética: exige personalidade e muita criatividade.

Margaret Qualley em cena de “Manual Prático da Vingança Lucrativa”- Divulgação Diamond Pictures
Narrativamente, Manual Prático da Vingança Lucrativa acompanha Becket Redfellow, um bastardo decidido a eliminar todos que estão entre ele e sua herança legítima. Assim como no filme de Hamer, a trama orbita questões morais e éticas, embaladas por mortes absurdas e uma sorte quase cartunesca do protagonista. No entanto, ao contrário de Alec Guinness, que interpretava múltiplos membros da família, Glen Powell assume apenas o papel central, e essa escolha retira parte do charme farsesco que sustentava o original. Patton Ford parece interessado demais em conferir peso dramático ao que deveria abraçar a galhofa.
O sino da igreja marcando cada morte, os cortes secos e irônicos, os diálogos espirituosos que provocam mais um sorriso lateral do que gargalhadas, tudo isso funciona. O problema surge quando o drama pessoal de Becket ganha uma gravidade excessiva, sobretudo no embate com as duas mulheres de sua vida: Julia, Margaret Qualley, e Ruth Jennifer Henwick.
Visualmente, ambas são construídas em contraste. Julia surge com postura rígida, enquadramentos que reforçam dominância e figurinos elegantes que ampliam sua ambição. Ruth, ao contrário, é filmada com naturalidade, em planos mais acolhedores e na altura dos olhos. Entre essas forças opostas, Powell constrói um Becket funcional, mas opaco, quase um eco pálido do personagem imortalizado por Guinness, e que Manual Prático da Vingança Lucrativa poderia ter explorado com maior carisma.
Quanto aos demais Redfellow assassinados pelo caminho, com exceção de Warren, tio de Becket, todos são apenas caricaturas que surgem e desaparecem de forma episódica, diluindo o potencial satírico. O filme aposta menos em trilha sonora vibrante e mais no silêncio e no design sonoro para intensificar o humor, uma escolha interessante, mas insuficiente para compensar a falta de ousadia.

Jessica Henwick em cena de “Manual Prático da Vingança Lucrativa”- Divulgação Diamond Pictures
A decisão de não escalar Powell para interpretar todos os descendentes, recurso icônico do longa de 1949 e de adaptações posteriores, faz com que o filme perca parte de sua identidade. Ao optar por contenção e coerência dramática, Patton Ford deixa escapar o caos e o absurdo que poderiam torná-lo memorável, uma pena, pois se oferecido para Powell, o ator com certeza toparia fazer.
Em termos de direção de arte e ambientação, a adaptação do universo britânico para os Estados Unidos funciona bem. Figurinos operam como extensões das ambições e fragilidades de seus personagens, da sofisticação calculada de Julia à simplicidade de Ruth. Ainda assim, permanece a sensação de que Manual Prático da Vingança Lucrativa oferece um entretenimento eficiente, mas menos reflexivo e potente que seu antecessor, levando a um filme morno demais para o próprio bem.
Distribuído pela Diamond Pictures, o filme estreia nos cinemas em 26 de fevereiro.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



