Dirigido por Emerald Fennell, “O Morro dos Ventos Uivantes” traz identidade nova e erótica a uma obra tantas vezes adaptada, encontrando individualidade por meio de um retrato autoral e corajoso.
Em entrevista de divulgação de O Morro dos Ventos Uivantes, Emerald Fennell justificou o uso de aspas no título do filme de forma simples, honesta e direta:
“Então é realmente O Morro dos Ventos Uivantes e, ao mesmo tempo, não é. Mas acredito que qualquer adaptação de uma obra, especialmente uma como esta, deveria ter aspas ao redor do título.”- Emerald Fennel
Essa fala resume grande parte do que poderia ser dito nesta crítica. Em sua humildade, Fennell reconhece o peso de um livro tão longevo e marcante quanto o romance de Emily Brontë, uma obra celebrada pela violência e crueza de sua história, mas que por conta da autora ser uma mulher, já foi compreendida como uma história de amor.
Até hoje, para cada leitor, a brutalidade do material o afeta de alguma maneira, e o limiar entre obsessão e amor se baseia na régua de cada um. Ainda assim, é inegável a força de O Morro dos Ventos Uivantes, que já rendeu incontáveis adaptações. O que torna, então, a releitura de Fennell tão singular? A resposta é simples: compreensão profunda dos temas centrais da obra, coragem para modificar o que precisava ser modificado e um cuidado estético meticuloso que amarra tudo com precisão.

Margot Robbie em cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”- Divulgação Warner Bros
O filme não é O Morro dos Ventos Uivantes de Brontë. Hindley não existe, o erotismo é muito mais latente, flertando inclusive com BDSM, e Heathcliff, vivido por um intenso Jacob Elordi, não apresenta as “origens ciganas” do livro. Ainda assim, com exceção da adaptação de 2011, poucas versões abraçaram esse lado mais físico e cru do personagem, antes interpretado por Ralph Fiennes e Tom Hardy.
O embranquecimento de Heathcliff retira um subtexto racial importante do romance original, escrito em um período logo após a abolição da escravidão. No entanto, considerando que apenas uma adaptação realmente respeitou essa etnia, transformar essa questão em militância excessiva acaba por obscurecer a experiência do filme em si. Afinal, esta não é a obra de Brontë, mas uma releitura moderna de Fennell, daí a importância das aspas.
Essa modernização se manifesta de diversas formas. Os vestidos glamourosos de Catherine, criados pela vencedora do Oscar Jacqueline Durran, se distanciam da época retratada e criam anacronismos evidentes, mas preenchem a tela com imponência. O design de produção, em perfeita sintonia com uma fotografia grandiosa e altamente saturada, transforma cada plano em um quadro, equilibrando romantismo e escuridão.
Cada movimento de câmera, cada acréscimo narrativo, cada cena de neblina ou chuva é uma sensação cuidadosamente construída. Detalhes como diferenciar Catherine e Isabella pelos figurinos, uma com o busto exposto, a outra completamente coberta, revelam como a estética é usada para construir caráter, tornando O Morro dos Ventos Uivantes algo digno da tela grande.

Margot Robbie em cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”- Divulgação Warner Bros
A versão de Fennell pode ser lida como uma história de amor entre duas figuras profundamente problemáticas: a mimada Catherine Earnshaw e o frio Heathcliff. Enquanto essas personalidades centrais são preservadas, personagens como Nelly, Joseph e especialmente Isabella ganham novos e interessantes olhares. Ainda assim, as semelhanças com o livro se encerram quando a narrativa se limita à primeira metade do romance, afastando Heathcliff da encarnação absoluta do mal descrita por Brontë, e tornando-o mais um romântico incompreendido, o que incomodará muito aqueles que buscam fidelidade acima de tudo.
Esteticamente, o filme une o mórbido ao belo, como na impactante cena final de Catherine. Mesmo nos momentos mais sombrios, há uma beleza que emerge da relação entre luz e sombra, evocando grandes produções épicas em Technicolor das décadas de 60 e 70, e este é um dos maiores créditos para a produção.
As polêmicas em torno de O Morro dos Ventos Uivantes se intensificaram após o trailer, com comparações a Cinquenta Tons de Cinza e críticas à divulgação como “A Maior História de Amor de Todos os Tempos”. Enxergando a produção como deve ser enxergada, como uma releitura, Emerald Fennell nunca escondeu seu interesse em discutir tabus sexuais, Saltburn (2023) é prova disso. Aqui, o erotismo se manifesta pelo toque, pelo flerte e pelo despertar sexual, e pelo subtexto, algo presente desde a primeira cena da produção que subverte de primeira a imaginação do espectador, ditando o tom para o resto do filme.
O lançamento do filme em 12 de fevereiro, conhecido como Valentine’s Day, reforça essa leitura como um amor proibido e condenado, à maneira de Romeu e Julieta. Ainda que o romance de Brontë esteja longe de ser uma história de amor tradicional, Fennell assume esse risco narrativo com convicção.

Margot Robbie em cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”- Divulgação Warner Bros
Uma adaptação literária não precisa ser fiel ao material original, essa é uma escolha artística. O Morro dos Ventos Uivantes adapta o que pode ser adaptado e altera o que precisa ser alterado para construir uma experiência épica, apaixonada e autoral. As aspas no título não diminuem o valor do romance original; ao contrário, ampliam seu alcance e trazem humildade ao reafirmar que este é, acima de tudo, o olhar de uma artista, e nunca teve a intenção de ser totalmente fiel, e neste caso, ainda bem que não.
Distribuído pela Warner Bros. Pictures, O Morro dos Ventos Uivantes estreia nos cinemas em 12 de fevereiro.
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