Dirigido por François Ozon, O Estrangeiro tem o sentimento existencialista do livro de Albert Camus, ao mesmo tempo que se torna uma adaptação tão fiel que limita as próprias decisões criativas.
Figura recorrente em diversos clubes de leitura, O Estrangeiro é uma das obras mais reconhecidas de Albert Camus e um dos principais veículos de sua filosofia existencialista. Se há algo que não se pode criticar na adaptação cinematográfica de Ozon, é sua fidelidade ao material original. No entanto, em determinados momentos, essa fidelidade se torna excessiva, funcionando como uma limitação para um diretor conhecido por ousar e inovar em seus projetos.
A história de Meursault, um homem apático a tudo e a todos, incapaz de chorar até mesmo no funeral da própria mãe, já é amplamente conhecida entre amantes da literatura e do cinema. Sua jornada até a aceitação de um desfecho inevitável e quase ritualístico é conduzida por Ozon de forma direta, iniciando com sua prisão para, em seguida, investigar os acontecimentos que o levaram até ali.

Denis Lavant em cena de “O Estrangeiro”- Copyright Foz – Gaumont – France 2 Cinema, Carole Bethuel
Preso mais por sua apatia do que pelo assassinato em si, Meursault não encontra felicidade nem em sua relação com Marie, nem na suposta amizade com Raymond, tampouco na observação de seu vizinho, um homem que, apesar de maltratar o próprio cachorro, encontra nele sua única companhia na velhice. Ainda que Marie e Djemila recebam maior destaque em momentos específicos de O Estrangeiro, especialmente em uma cena posterior ao julgamento que sintetiza as questões centrais do filme, a narrativa permanece majoritariamente clássica, sustentada por uma estética bastante particular.
A fotografia em preto e branco remete diretamente às obras de Sebastião Salgado, utilizando a ausência de cor para intensificar as emoções. Nesse contexto, cada olhar ganha mais peso. Ao observar Meursault após o assassinato, mesmo sem qualquer relação com a vítima, o espectador é tomado por uma sensação de estranhamento e antipatia, refletindo o vazio que define o personagem.
Ao explorar o contraste entre os prédios sombrios e as praias luminosas da Riviera Francesa, o filme constrói uma experiência visual contemplativa. Longos momentos de silêncio se apoiam no carisma de Rebecca Marder e Benjamin Voisin, além das paisagens e das reflexões existencialistas que remetem diretamente à obra de Camus.

Benjamin Voisin e Rebecca Marder em cena de “O Estrangeiro”- Copyright Foz – Gaumont – France 2 Cinema, Carole Bethuel
À medida que a narrativa avança, torna-se evidente que a condução da história é tradicional demais para um diretor com a trajetória de Ozon. Embora bem dirigido e ancorado em atores recorrentes de sua filmografia, o filme perde parte de sua identidade ao se diluir em um existencialismo que, assim como no material original, provoca apatia e desconforto, mas sem oferecer um contraponto estético mais ousado.
Quando Marcello Mastroianni interpretou Meursault na versão dirigida por Luchino Visconti, em 1967, os amplos movimentos de câmera equilibravam o vazio do personagem com uma encenação visualmente dinâmica. Além disso, a própria presença de Mastroianni já era suficiente para capturar o espectador. Na versão de Ozon, por outro lado, a estética, embora visualmente elegante, parece trabalhar a favor da apatia da narrativa, ampliando a sensação de vazio em vez de tensioná-la.
Como adaptação, O Estrangeiro é tão fiel quanto possível. Ainda assim, a ausência de maior ousadia estética faz com que o filme tropece em momentos em que poderia ir além. Movimentos de câmera mais expressivos, abordagens visuais mais arriscadas e escolhas narrativas menos convencionais, inexistentes à época de Camus, poderiam expandir significativamente o impacto da obra, e torná-la bem mais marcante do que o resultado final.
Distribuído pela California Filmes, O Estrangeiro estreia no dia 16 de abril.
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