Dirigido por Erica Rivinoja e Alessandro Carloni, O Gatola de Cartola adapta o universo de Dr. Seuss de maneira muito mais profunda do que inicialmente parece
Em questão de qualidade, existe uma diferença considerável entre O Grinch (2018, Scott Mosier e Yarrow Cheney) e O Gatola de Cartola. Ambos os personagens já tiveram suas respectivas adaptações no começo dos anos 2000, com O Gato (2003, Bo Welch) sendo responsável por praticamente sepultar qualquer possibilidade de novas produções live-action baseadas nas obras de Dr. Seuss.
Entretanto, enquanto a animação de 2018 segue uma linha mais simplista e mecânica, sendo praticamente uma reprodução do filme de Ron Howard, mas sem o mesmo charme, Erica Rivinoja e Alessandro Carloni ampliam o material original de maneira nada menos que surreal, sem esquecer seu coração.
Voltando o holofote para o Gatola de Cartola, ao invés de tratá-lo apenas como um alívio cômico ou um personagem picaresco, desta vez compreendemos desde o começo sua principal característica: “seu único crime foi amar demais”. Trabalhando no I.I.I.I. (Instituto para Instituir a Imaginação e a Inspiração), o protagonista tem como missão alegrar crianças, assim como todos os seus colegas. Entretanto, apesar de sempre cumprir suas tarefas, o nível de confusão causado por suas intervenções costuma ultrapassar qualquer expectativa, fazendo com que o personagem acabe demitido.

Cena de “O Gatola de Cartola”- Divulgação Warner Bros
Como última tentativa de redenção, ele recebe a missão mais difícil de todas: alegrar dois irmãos, Gabby e Sebastian, que estão infelizes com a mudança para uma nova cidade, enquanto a mãe, constantemente ocupada com o trabalho, tem dificuldades para estar presente. Levando as crianças por uma jornada que transforma a maneira como enxergam o próprio passado, o Gato acaba revelando não apenas a importância de sua missão, mas também o verdadeiro significado de sua existência.
Apesar de O Gatola de Cartola ser direcionado ao público infantil, foi curioso assistir à produção em uma sessão de pré-estreia lotada de crianças, justamente a faixa etária para a qual o filme foi concebido, mas que poucas vezes realmente demonstrava engajamento com seu humor mais anárquico e elaborado, reagindo principalmente às piadas físicas. Isso evidencia uma característica interessante da produção: embora sua apresentação seja bastante acessível aos pequenos, boa parte de suas melhores provocações parece encontrar um público mais receptivo entre pré-adolescentes e adultos.
Afinal, piadas sobre a burocracia da I.I.I.I., sobre como “As Coisas” futuramente terão um filme próprio nos moldes dos Minions e, principalmente, a mensagem sobre maternidade e os sacrifícios que os pais fazem em nome do amor pelos filhos, possuem uma potência diferente quando observadas por uma audiência mais madura. O filme entende que crescer também significa aprender a lidar com responsabilidades, mas questiona até que ponto isso deve significar abandonar a espontaneidade. Nesse sentido, o Gatola de Cartola funciona quase como uma oposição à própria instituição em que trabalha: enquanto a I.I.I.I. tenta regulamentar a imaginação, ele representa uma criatividade impossível de ser domesticada.

Cena de “O Gatola de Cartola”- Divulgação Warner Bros
Um dos consensos entre os espectadores, por outro lado, está na quantidade de estímulos visuais oferecidos pela produção, com um uso potente e grandioso das cores e, principalmente, de suas ausências. Quando estamos em um ambiente burocrático como a I.I.I.I., tudo é grandioso e vibrante; quando retornamos à realidade, as cores assumem tonalidades mais terrenas, mas nunca deixam de transmitir vida.
Já no mundo dos sonhos, as possibilidades estéticas realmente ganham liberdade, fazendo tudo brilhar como deveria acontecer em uma produção cuja principal lição é justamente aprender a se soltar e aproveitar a própria criança interior. Não se trata apenas de uma escolha visualmente atraente, mas de uma maneira de traduzir a liberdade criativa que o filme defende em sua narrativa.
Com um ritmo acelerado e uma história relativamente simples de acompanhar, a produção se apropria do absurdo até mesmo nas sequências mais dramáticas, como a conversa entre Waffles e Patty ou a grande reviravolta envolvendo a relação do Gato com a mãe de Gabby.
Mesmo quando encontra oportunidades para abraçar o drama de maneira mais convencional, o longa prefere preservar seu clima de leveza, permitindo que diferentes mensagens coexistam sem abandonar a personalidade caótica de seu protagonista. A ideia de que os bons momentos eventualmente passam, mas outros sempre surgirão, funciona como um fio condutor particularmente importante para compreender a jornada dos personagens.

Cena de “O Gatola de Cartola”- Divulgação Warner Bros
Entretanto, essa quantidade de ideias também cobra seu preço. Em determinados momentos, a velocidade com que O Gatola de Cartola apresenta novas situações e mensagens impede que algumas delas recebam o desenvolvimento necessário. Os núcleos dramáticos poderiam ter mais espaço para respirar, especialmente quando o filme se aproxima de questões familiares mais delicadas.
O Gatola de Cartola pode não ser tão grandioso esteticamente quanto O Bosque Selvagem (2026, Travis Knight), ou dramaticamente eficiente quanto A Ilha Esquecida (2026, Januel Mercado e Joel Crawford), mas apresenta o coração no lugar certo e não tem medo de ousar na maturidade de suas piadas, sem esquecer o público ao qual realmente se direciona. Existe uma paixão evidente pela construção desse universo, principalmente na maneira como o absurdo é utilizado para transmitir sentimentos genuínos, sem transformar cada momento emocional em uma interrupção da diversão.
Dentro desse caos, que remete aos desenhos clássicos das décadas de 1960 e 1970, especialmente Looney Tunes, a animação entrega uma verdadeira montanha-russa que poderia ser mais sólida em seus objetivos narrativos, mas cuja paixão e riqueza de detalhes estéticos compensam boa parte dessas limitações. Mais do que apresentar possibilidades para futuras produções, o longa demonstra compreender o que torna esse universo tão especial.
Quando a última fala do filme, desconsiderando os epílogos, é simplesmente um “Obrigado”, dito por uma mãe que agradece a uma criatura fantástica por trazer conforto aos seus filhos, compreendemos a dimensão dramática construída até então. É um encerramento que funciona quase como um grande suspiro depois de tanto caos e anarquia, trazendo uma sensação de paz que sintetiza muito bem a mensagem da produção.
Ao final, o próprio Gatola de Cartola deixa de ser apenas uma figura excêntrica e divertida para se tornar alguém por quem realmente desenvolvemos carinho e admiração. Afinal, todos precisamos preservar um pouco dessa empolgação infantil ao longo da vida. Caso contrário, qual seria a graça?
Distribuído pela Warner Bros., O Gatola de Cartola chega aos cinemas no dia 5 de novembro.
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