Dirigido por Tony Gilroy, Behemoth! pode se perder em alguns momentos de sua narrativa, mas entrega uma jornada potente sobre o peso de nossas escolhas e como a incapacidade de abandonar o passado nos impede de seguir em frente.
Após transitar pela ação e pela espionagem, além de conferir maior humanidade ao universo de Star Wars, Tony Gilroy entrega uma potente jornada dramática. Em Behemoth!, o cineasta utiliza uma estética realista para acompanhar um músico incapaz de encontrar forças para superar as próprias dores.
A partir dessa premissa, nasce uma homenagem aos profissionais que, embora muitas vezes invisíveis, são capazes de nos emocionar profundamente por meio do audiovisual. Para isso, aposta em elaborados planos-sequência, uma montagem não linear e uma trilha sonora concebida por um coletivo de compositores consagrados.
Assim como em A Identidade Bourne (2002, Doug Liman), a narrativa não segue uma ordem cronológica convencional. Em vez disso, acompanha aproximadamente 15 anos da vida de Alex, personagem de Pedro Pascal, revelando diferentes versões do mesmo homem: do apaixonado e esperançoso ao depressivo e descrente.

Olivia Wilde em cena de “Behemoth!”- Divulgação 20th Century Studios
Nesse percurso, a música funciona como uma extensão de seu estado emocional. Quando Alex encontra alguma tranquilidade, a trilha acompanha esse sentimento; quando a agitação toma conta, ela se intensifica. Isso fica evidente logo no início, quando o protagonista precisa fugir de um teatro em uma sequência filmada como uma perseguição, demonstrando a capacidade de Gilroy de transformar situações cotidianas em momentos de tensão cinematográfica.
A passagem do tempo é demarcada por detalhes visuais, como um cartaz que anuncia uma apresentação em 2010 ou uma placa com os dizeres “Vote Hillary”, que situa uma das sequências em 2016. As mudanças na barba e nos cortes de cabelo de Pascal também ajudam a identificar as diferentes fases da vida de Alex. Mais importante, porém, é a transformação de sua joie de vivre, diretamente relacionada à sua trajetória afetiva e ao impacto de seu relacionamento com Nadia, interpretada por Eva Victor.
Apesar dessas escolhas formais, a narrativa demora a encontrar seu ritmo e, em alguns momentos, direciona mal o foco dramático. É por meio dos personagens secundários que a trajetória de Alex ganha contornos mais claros. Carol, sua ex-namorada, proporciona um alívio cômico eficiente graças à atuação de Olivia Wilde. Andy, seu irmão, enfrenta conflitos semelhantes, mas encontra outras formas de escape. Já Viviana, um prodígio musical, é fundamental para compreender as questões centrais do filme e o caminho que Alex precisa percorrer.

Pedro Pascal e Olivia Wilde em cena de “Behemoth!”- Divulgação 20th Century Studios
Com pouco mais de duas horas de duração, Behemoth! encontra na direção e na música seus principais trunfos. Como Alex trabalha com a sonorização de produções audiovisuais, a participação de compositores como James Newton Howard, Alan Silvestri e Michael Giacchino, reunidos no chamado The Behemoth! Collective, estabelece uma relação orgânica entre a profissão do protagonista e a própria linguagem do filme.
As composições transitam entre o trágico e o cômico, o cartunesco e o dramático, até alcançar momentos apoteóticos. Essa diversidade amplia as possibilidades expressivas da trilha e confere fluidez a uma narrativa que, sem esse recurso, poderia se tornar excessivamente fragmentada.
À medida que as diferentes linhas temporais se conectam, compreendemos melhor a insegurança e a apatia de Alex. No centro de sua crise está um sentimento universal: o amor, tanto em sua ausência quanto na dor de sua perda. Incapaz de lidar com o que ficou para trás, o protagonista entra em uma espiral de descrença na própria capacidade de seguir adiante.
Sua jornada, portanto, não consiste simplesmente em superar o passado, mas em ressignificá-lo e reconhecer que a perda não precisa determinar tudo o que ainda está por vir. É nesse movimento que Behemoth! encontra sua força emocional, ao transformar a reconstrução de um homem em uma reflexão sobre a possibilidade de reencontrar a si mesmo.

Pedro Pascal em cena de “Behemoth!”- Divulgação 20th Century Studios
Há, contudo, uma dimensão calculada na maneira como Behemoth! organiza seus elementos dramáticos. A fotografia expressiva, as atuações de um elenco experiente, o humor pontual e a estrutura narrativa que homenageia a própria linguagem cinematográfica compõem uma produção que parece mirar o circuito de premiações. Ainda assim, o filme não se resume a essa combinação de atributos, especialmente porque seu elenco vai além dos nomes destacados no material de divulgação.
Apesar dos problemas de ritmo, a montagem de John Gilroy é decisiva para manter o interesse pela trajetória de Alex. A fragmentação temporal não funciona apenas como um recurso estético: ela preserva lacunas, cria mistérios e permite que o espectador reconstrua gradualmente a história do protagonista. Ao evitar uma exposição cronológica convencional, o filme amplia o impacto de determinadas revelações, ainda que nem todas as escolhas narrativas alcancem a mesma eficácia.
Ao final, Behemoth! se revela um mergulho na vida de um homem atormentado pelos próprios demônios, acompanhado por uma música que atua quase como uma coprotagonista. Tony Gilroy combina uma abordagem naturalista da dor com os exageros de personagens como Carol e do pai de Alex, interpretado por Hank Azaria.
Essa alternância entre contenção e extravagância nem sempre encontra o equilíbrio ideal, mas reforça a identidade particular da obra. No fim, é a partir de sentimentos reconhecíveis que o filme constrói uma experiência complexa, inusitada e, sobretudo, humana.
Distribuído pela 20th Century Studios, Behemoth: Uma Vida Composta em Peças foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para 3 de dezembro de 2026.
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