Crítica | ‘O Meu Século 20’ é filme instigante em cartaz na Supo Mungam Plus

É mais do que árdua a tarefa de tentar definir a divertida obra da cineasta húngara Ildikó Enyedi. Mesmo que O Meu Século 20 seguisse alguma narrativa mais linear e o filme não fosse uma série de vinhetas e pequenos momentos significativos, ainda assim eu encontraria problemas para “julgar” o filme que me foi apresentado. Hoje estou abrindo uma exceção. Estou escrevendo essa crítica na primeira pessoa, visto que não posso me excluir desse processo e desse questionamento que é o ato de redigir uma crítica.

Uma leitura íntima

Tenho trabalhado como crítico há quase dois anos. Nesse meio tempo tenho aumentado a minha bagagem cinematográfica frequentemente. Muitas vezes vejo filmes medíocres (no sentido mais literal da palavra), algumas vezes vejo filmes ruins, ou vejo filmes bons, mas raramente vejo filmes instigantes.

A princípio, um filme não precisa ser genial, muito menos ótimo, para ser instigante. Tenet é um exemplo de um blockbuster medíocre que te instiga a discutir o estado deprimente do cinema americano atual. The Nagano Tapes é um documentário produzido pelo canal olímpico que conta a história do time tcheco de hóquei no gelo durante as olimpíadas de Nagano. Eu jamais me interessaria no assunto, mas o filme é tão divertido e tão emotivo que não é possível ignorar uma obra dessas.

O Meu Século 20 segue essa lógica de ser um filme tão diferente que acaba sendo especial justamente por isso. Enquanto alguns diretores lutam para entregar uma obra que vai te fazer comentar por horas a fio, Enyedi deu de bandeja um longa tão simples e tão cândido que preciso fazer força para não pensar nele o tempo todo. A história segue amplamente um par de gêmeas húngaras, Lili e Dóra, no entorno do ano novo de 1900. Suas vidas estão intimamente entrelaçadas com a divulgação publica das invenções de Thomas Edison. É algo que parece um foreshadowing do tipo de novo século que vinha pela frente, além de traçar um paralelo com um tipo de “nova mulher” do futuro: incompreensível, moderna, indomável, progressista etc.

Temáticas

Junto desse subtexto, O Meu Século 20 apresenta a história em tomos, ou vinhetas. Pequenos recortes de 2 vidas mostrados a partir do ponto de vista das duas personagens protagonizadas pela atriz Dorota Segda. A caracterização das duas personagens como dois opostos da modernidade serve para potencializar esse subtexto do desconhecido à espreita. Um século 20 começava a despontar com alguns sinais de como o mundo mudaria. Ondas sucessivas de movimentos anárquicos, criminalidade rampante, pensamentos progressistas de viés feminista, imperialismo e tanto mais são demonstrados como pequenos prenúncios, como as primeiras gotas de chuva antes da tempestade.

De fato, O Meu Século 20 quer mostrar um preludio cinematográfico de como a sociedade húngara e europeia estava em ebulição, no caminho de algo revolucionário. Simultaneamente vemos duas jovens damas vivendo as suas vidas à sua maneira, seja lutando pelo que se acha correto, seja roubando e copulando pelo puro prazer de viver uma vida hedonística. A possível mensagem futurista não bate de encontro com a história simplista. Elas na realidade se complementam e trabalham unidas no intuito de fortificar o filme. Por fim só se pode torcer para encontrar mais longas como O Meu Século 20, divertidos, inteligentes e belos. Está disponível aqui no streaming da Supo Mungam Plus.

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9
O Meu Século 20

Divertido, belo, ótimo

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