Dirigido por Jim Jarmusch, Pai Mãe Irmã Irmão entrega três histórias-espelho que discutem, com sutileza, as marcas, os distanciamentos e os afetos presentes nas relações familiares.
Existem costumes familiares que parecem únicos enquanto estamos imersos em nosso próprio núcleo. No entanto, ao observar de fora, percebemos que as dinâmicas se repetem: amar, crescer, se afastar, se reconectar. Ao final, nenhuma relação é totalmente singular. Com esta mentalidade que Pai Mãe Irmã Irmão conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, não apenas por ser um drama contemplativo de um diretor consagrado, mas por provocar reflexões íntimas a partir de simbolismos simples e interações carregadas de subtexto.
Dividido em três capítulos, o filme se apoia no silêncio, em uma trilha sonora pontual que flerta com o jazz e em uma direção de arte discreta, sem excessos cromáticos. A fotografia, por sua vez, é marcante, com planos próximos e forte uso de enquadramentos zenitais, especialmente na terceira história. Os personagens surgem quase como arquétipos: a filha intelectual de tons pastéis, o filho divorciado e engomado, a filha rebelde de cabelo rosa que mente para se afirmar, e os irmãos gêmeos punk que descobrem segredos após a morte dos pais.

Tom Waits em foto de “Pai Mãe Irmã Irmão”- Copyright Vague Notion 2024_Frederick Elmes
Mesmo com nomes de peso como Cate Blanchett e Adam Driver, o elenco parece propositalmente contido, quase anônimo. Ainda assim, o star power se impõe, e quando estão em cena, brilham, mesmo dentro dessa proposta mais apagada.
A maior força de Pai Mãe Irmã Irmão está no roteiro. Embora por vezes morno, ele constrói uma narrativa em espelho que funciona como um jogo entre diretor e espectador. As três histórias dialogam entre si: enquanto os dois primeiros capítulos, focados em pai e mãe, revelam relações frias e distantes, o terceiro, centrado nos irmãos, traz um afeto mais genuíno e caloroso.
Apesar das semelhanças estruturais, cada segmento mantém sua identidade. A reviravolta do primeiro é única, assim como os simbolismos do segundo e o tom emocional do terceiro. Não por acaso, cada história se passa em um local diferente, reforçando que, independentemente do espaço, as dinâmicas familiares tendem a se repetir.

Cate Blanchett, Vicky Krieps e Charlotte Rampling em cena de “Pai Mãe Irmã Irmão”- Copyright Vague Notion 2024_Yorick Le Saux
É o melhor filme de Jim Jarmusch? Não. Está longe disso. Trata-se de uma obra modesta, contida e simples, que não alcança o mesmo nível de seus trabalhos mais marcantes, e nem é tão marcante quanto seus experimentos com o cinema de gênero. O prêmio em Veneza pode soar mais como um reconhecimento de carreira do que como consagração deste filme específico.
Ainda assim, para quem aprecia diálogos sutis e reflexões sobre laços familiares, Pai Mãe Irmã Irmão é uma ótima escolha. Com boas atuações e um ritmo irregular, mas envolvente, o filme nos conduz até o fim com uma sensação familiar: a de que a vida é exatamente assim, e inevitavelmente nos faz pensar na nossa própria família, e como nos enxergamos dentro deste sistema que é tão forte e ao mesmo tempo tão frágil.
Distribuído pela Imovision, em parceria com a Mubi, Pai Mãe Irmã Irmão chega aos cinemas brasileiros no dia 09 de Abril.
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