Dirigido por Osgood Perkins, Para Sempre Medo parte de um universo folclórico rico e promissor, mas transforma esse material em uma experiência hermética demais para sustentar o próprio peso.
A premissa de Para Sempre Medo é simples e eficaz: um casal celebra um ano de relacionamento em uma cabana isolada na floresta. Este cenário, por si só, já evoca o imaginário clássico do horror com isolamento, natureza opressiva, tensão íntima, e por conta disso as possibilidades de inovação seriam muitas. Perkins adiciona a esse esqueleto elementos folclóricos e um embate psicológico sobre gênero e abuso, sugerindo um terror que dialoga tanto com o sobrenatural quanto com conflitos estruturais. O potencial está ali. O problema em si foi a execução do projeto.
A falha mais evidente de Para Sempre Medo está no ritmo. Mesmo apostando em uma atmosfera densa e contemplativa, sustentada por uma fotografia elegante e um design de som que utiliza percussões e cordas graves para insinuar ameaça constante, essa construção não evolui. Sequências que deveriam intensificar a tensão prolongam-se além do necessário, acumulando sinais de perigo que raramente encontram um desfecho proporcional. O espectador aprende rapidamente que a promessa de explosão dramática dificilmente será cumprida, e, quando finalmente chega, o impacto já foi diluído.

Tatiana Maslany em cena de “Para Sempre Medo”- Divulgação Diamond Pictures
Há uma cena emblemática nesse sentido: após uma longa preparação sonora e visual que sugere a revelação de algo decisivo na floresta, o que surge é menos perturbador do que o próprio silêncio que o antecedeu, ocasionando uma interação com uma personagem secundária, que isoladamente nem sentido tem para o todo. O filme insiste em preparar o terreno, mas hesita em atravessá-lo. Essa lógica se repete, criando a sensação de que o mistério é mais interessante como conceito do que como evento.
O simbolismo folclórico, embora visualmente instigante, sofre do mesmo problema. Criaturas, rituais e acontecimentos estranhos recebem explicações no terceiro ato, mas essas respostas parecem encaixadas de maneira funcional, quase didática. Em vez de expandir o universo apresentado, elas o reduzem a uma engrenagem previsível. O que deveria soar ancestral e inevitável acaba parecendo arbitrário, como um truque revelado antes do tempo.
O embate entre perspectivas masculina e feminina, sugerido desde o material promocional, também não encontra desenvolvimento à altura. A alternância de pontos de vista promete um estudo mais profundo sobre dinâmica de poder e abuso, mas o roteiro opta por soluções simbólicas em vez de dramáticas. Liz, interpretada por Tatiana Maslany, possui momentos de forte presença, especialmente nos planos mais oníricos, onde a mise-en-scène ganha textura e ambiguidade, mas esses lampejos não se conectam organicamente ao conflito central. São fragmentos interessantes em um conjunto disperso, que somente pela vontade do roteirista, se encaixa no todo.

Cena de “Para Sempre Medo”- Divulgação Diamond Pictures
Existe, claramente, a intenção de subverter expectativas. Perkins tenta rejeitar a construção tradicional do terror comercial, porém, sua concepção deixa a desejar. Essa escolha poderia resultar em algo singular. Contudo, a recusa em oferecer ancoragem emocional ou progressão consistente transforma a experiência em distanciamento. Não se trata de exigir explicações mastigadas, mas de reconhecer que até o horror mais abstrato depende de coerência interna.
Para Sempre Medo não fracassa por ambição; fracassa porque não organiza essa ambição. Seus elementos isolados, atmosfera, proposta temática, imagética folclórica, funcionam como peças interessantes que jamais se encaixam plenamente. Ao final, permanece a sensação de um filme que deseja ser enigmático, mas que confunde complexidade com obscuridade.
Distribuído pela Diamond Pictures, Para Sempre Medo estreia nos cinemas no dia 19 de fevereiro.
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