Dirigido por Adam Wingard, Protocolo de Extermínio entrega absurdos em um terror de ação que faz do caos e do exagero seu principal motor
Geralmente, quando assisto a produções em cabines de imprensa, levo um caderninho muito mais para organizar meus pensamentos sobre o filme do que para registrar tudo o que acontece em cena. No caso de Protocolo de Extermínio, porém, houve uma palavra que se repetiu diversas vezes ao longo da sessão: “exagero”.
Seja pelos supersoldados que agem como animais incansáveis, tendo como única missão matar; pelo cientista alemão que, ao ouvir um sino, engatinha para beijar os pés da esposa; ou pela mãe que perde um olho e continua lutando com uma garra sobre-humana para proteger a filha, o longa parece determinado a levar cada uma de suas ideias ao limite.
A estética de Protocolo de Extermínio abraça constantemente a loucura e o excesso para estruturar a jornada de uma mãe tentando proteger a filha de três soldados geneticamente modificados que, ao final, parecem existir muito mais para alimentar o espetáculo do que para desenvolver uma mitologia própria. Entre eles, apenas um realmente permanece na memória: O Açougueiro. Brega? Com certeza. E é justamente isso que Wingard parece querer.
Enquanto Você é o Próximo (2011, Adam Wingard) encontra força ao tratar o subgênero home invasion com relativa seriedade, aqui o diretor pisa no acelerador e constrói sequências de violência cada vez maiores, remetendo diretamente às produções exageradas dos anos 1980 e, principalmente, ao espírito do Grindhouse.

Dan Stevens em cena de “Protocolo de Extermínio”- Divulgação Diamond Filmes Br
Popularizado e homenageado por cineastas como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, o estilo Grindhouse possui uma lógica muito própria: quanto mais extremo, sujo, exagerado e absurdo, melhor. Wingard utiliza esses elementos em peso. Depois de um início que contextualiza o espectador por meio de vídeos e imagens de arquivo sobre um dos grandes medos da sociedade estadunidense, os tiroteios em massa, Protocolo de Extermínio transforma esse temor em matéria-prima para um espetáculo de violência crescente.
O Chorão, A Barata e O Açougueiro são três monstros na forma de homens, com olhos sem vida que brilham na escuridão, quase como criaturas folclóricas. São figuras que parecem existir para materializar um medo irracional: você pode estar simplesmente comprando uma raspadinha durante a noite e, no instante seguinte, ser assassinado por eles. Não existe necessariamente uma lógica por trás disso. E é justamente essa ausência de lógica que alimenta o horror.
O terror do filme se sustenta nesse medo interior, mas, no contexto estadunidense, ele ganha uma dimensão ainda mais concreta. Segundo dados citados pela CNN Brasil, mais de 40 mil pessoas foram baleadas nos Estados Unidos somente em 2025, uma média superior a 110 pessoas por dia. É um dado assustador, e Wingard parece compreender o potencial cinematográfico desse medo ao levá-lo a extremos cada vez mais gráficos, sem qualquer receio de tornar a violência explícita.
Ao mesmo tempo, em uma escala muito menor, o sexo é explorado de uma maneira que, na falta de uma palavra melhor, só pode ser descrita como fetichista. Isso aparece tanto na relação do doutor com sua esposa quanto na sequência em que o único agente da CIA disponível está em uma casa de prostituição, recebendo uma dança extremamente sugestiva que, apesar da maneira como é filmada, pouco acrescenta à narrativa. São momentos que reforçam o desejo do filme de transformar praticamente tudo em espetáculo.

Cena de “Protocolo de Extermínio”- Divulgação Diamond Filmes Br
Com uma fotografia terrosa e granulada, uma trilha sonora de imersão muito bem executada, e um orçamento modesto de US$ 15 milhões, baixo quando comparado a outras produções de grande escala, inclusive trabalhos anteriores de Wingard, como Godzilla vs. Kong (2021) e Godzilla x Kong: O Novo Império (2024), Protocolo de Extermínio mergulha de cabeça nesse contexto camp e coloca o drama familiar no centro de uma história que parece muito mais interessada em explorar seus próprios excessos do que em construir grandes camadas narrativas.
Acompanhamos uma mulher divorciada que vive em um estacionamento de trailers ao lado de um policial pouco útil, um ex-militar do Vietnã e uma série de adolescentes e personagens que parecem existir apenas para compor aquele microcosmo social. Tudo muda quando os três supersoldados escapam de uma instalação governamental e chegam até aquele espaço, obrigando a protagonista a lutar pela própria vida e pela sobrevivência da filha.
Sem grandes curvas dramáticas ou clímax particularmente elaborados, Protocolo de Extermínio mantém sua proposta de exagero atrás de exagero. Armas pequenas e grandes, machados, motosserras, correria, gritaria e corpos sendo dilacerados ocupam um espaço cada vez mais limitado dentro do estacionamento de trailers. E, curiosamente, é justamente aí que a proposta começa a perder força: o filme encontra seu limite físico antes de encontrar um novo caminho para ampliar o espetáculo.
Até mesmo a relação entre Celeste e O Açougueiro parece construída de maneira excessivamente didática e imatura, como se fosse necessário criar uma proximidade emocional entre os dois para que o público compreendesse a dimensão daquele confronto. Quando, na realidade, bastaria ao filme continuar fazendo aquilo que já havia demonstrado saber fazer: entregar exagero, violência e absurdo.

Adria Arjona em cena de “Protocolo de Extermínio”- Divulgação Diamond Filmes Br
A crítica de Protocolo de Extermínio está nas entrelinhas desde o começo, especialmente na maneira como o longa transforma o medo da violência armada em uma espécie de pesadelo grindhouse. O problema é que Wingard parece não confiar plenamente no espectador. Em vez de permitir que essas ideias permaneçam reverberando, o diretor insiste em sequências de violência que criam um estado de perigo constante que pouco oscila.
O resultado é um filme que permanece em um mesmo platô durante boa parte da segunda metade. Nem mesmo a batalha final consegue elevar essa sensação, encerrando a história de maneira relativamente convencional quando poderia funcionar como a grande explosão de tudo aquilo que foi construído anteriormente.
No fim, Protocolo de Extermínio sabe exatamente o tipo de filme que quer ser. É um filme que quer ser uma montanha-russa de violência, e nesse aspecto, entrega exatamente o que promete. O problema é que, depois de tanta subida, descida e explosão, fica a sensação de que poderia haver algo a mais esperando no fim do percurso.
Distribuído pela Diamond Pictures Brasil, Protocolo de Extermínio estreia no dia 1º de outubro.
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