Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, Precisamos Falar joga um holofote sobre a hipocrisia da elite brasileira e, neste momento, ninguém está realmente seguro.
Tendo iniciado sua trajetória pelos festivais em 2024, Precisamos Falar chega aos cinemas em um momento particularmente oportuno, talvez até demais, duas semanas antes do primeiro turno das eleições para presidente do Brasil. A proximidade chama atenção não apenas pela temática política, mas pela maneira como o filme expõe a hipocrisia da sociedade brasileira e os perigos de ignorarmos aquilo que acontece ao nosso redor quando acreditamos estar protegendo os nossos.
Inspirado no livro O Jantar (2009), de Herman Koch, o longa de Waddington e Diniz amplia esse universo para a realidade brasileira ao discutir uma das feridas mais persistentes do país: o racismo e o preconceito contra aqueles colocados à margem da sociedade. Embora o crime cometido por Michel e Rick seja o mesmo da obra de Koch, a agressão contra uma mulher em situação de rua que dormia em um caixa eletrônico, a adaptação atualiza suas consequências ao incorporar as redes sociais e, principalmente, o campo político.
Tecnicamente, Precisamos Falar se beneficia de um chiaroscuro que aumenta constantemente a sensação de tensão, como se houvesse sempre alguma coisa escondida nas sombras. E, narrativamente, é exatamente isso que acontece. Apesar de algumas enrolações e exageros, inclusive com o jantar que só acontece efetivamente no terceiro ato, a construção dessa espécie de caverna moral é bastante interessante.

Marjorie Estiano e Alexandre Nero em cena de “Precisamos Falar”- Divulgação Sony Pictures
De um lado está Paulo (Alexandre Nero), um ex-professor com problemas de pressão, demitido após ser acusado de assediar uma aluna. Casado com Sandra (Marjorie Estiano), uma espécie de “mulher virtuosa” que vive em função do marido e, principalmente, do filho Michel (Thiago Voltolini). Delinquente, carente e extremamente manipulador, Michel é também um dos personagens mais interessantes da produção.
Do outro lado estão Celso (Emilio de Mello), político em campanha para o governo do estado; Ana (Hermila Guedes), sua esposa e a verdadeira força por trás do dinheiro e da estratégia eleitoral; Rick (Guilherme Cabral), filho do casal, amigo e cúmplice de Michel no crime; Jefferson (Cauê Campos), filho adotivo e negro do casal; e Valéria (Júlia Svacinna), a personagem mais apagada desse seleto grupo.
É justamente nesse grande conjunto de personagens que o filme encontra sua força. A câmera fria faz com que sintamos raiva de praticamente todos em algum momento. São comentários, ocultações, dramas particulares, decisões ríspidas e absurdas ou, às vezes, simplesmente um olhar, como acontece cada vez que Thiago Voltolini entra em cena.
O crime é apresentado ao espectador tanto em primeira pessoa, por meio de uma gravação amadora de Michel, quanto por meio de uma câmera de segurança que o apresenta em terceira pessoa e de maneira mais neutra, mas não menos cruel. Assim, não precisamos de muito para compreender a dimensão dos atos de Michel. O problema é que sua sociopatia e sua carência não terminam ali. E é justamente nessa continuidade que reside uma das principais questões do filme: até onde somos capazes de justificar o comportamento de alguém quando existe uma relação afetiva envolvida?
Com pouco mais de duas horas, a tensão permanece constante e a narrativa é instigante, ainda que o longa demonstre, em alguns momentos, certo receio de realmente puxar o último fio e deixar tudo despencar. A crítica social é evidente, especialmente em relação à elite e ao conservadorismo brasileiro, mas existe uma contradição interessante nessa proposta: quem mais precisaria olhar para esse espelho provavelmente é também quem menos se verá refletido nele.

Cauê Campos e Guilherme Cabral em cena de “Precisamos Falar”- Divulgação Sony Pictures
Mais do que uma discussão política, Precisamos Falar coloca o espectador diante de sua própria noção de humanidade. Aos poucos, perdemos o logos e passamos a agir pelo pathos, guiados pelo medo, pelo afeto e pelo instinto de proteção. Afinal, até onde você chegaria para proteger alguém que ama?
Existem, porém, possibilidades que poderiam ter sido melhor exploradas. Uma interação mais forte entre Sandra e Ana poderia render conflitos interessantes; os problemas cardíacos de Paulo poderiam ganhar maior peso dramático; e a relação edipiana e perturbadora entre Sandra e Michel poderia ser levada ainda mais longe. O filme é corajoso ao apresentar essas possibilidades, mas, em determinados momentos, parece hesitar diante das próprias consequências. E essa hesitação faz com que Precisamos Falar seja menos impactante do que poderia ser.
No fim, Precisamos Falar não é um filme fácil. Longo e de ritmo irregular, mantém-se prazeroso graças a um elenco preciso e eficiente e a uma mensagem que oscila entre a reflexão íntima e o esculacho visual construído propositalmente para provocar o espectador. Seu final abre espaço para diferentes discussões, mas, sobretudo, para aquilo que talvez seja mais desconfortável depois de um filme como este: o silêncio.
Distribuído pela Sony Pictures Brasil e pela Conspiração, Precisamos Falar chega aos cinemas no dia 26 de setembro.
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