Dirigido por Oliver Laxe, Sirât é experiência sensorial e espiritual que mergulha o espectador na fraternidade, na solidão e nos perigos de uma zona de guerra.
Nomeado à Palma de Ouro, vencedor do Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, e escolhido como filme de abertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Sirât chega dando o ar do que se esperar na mostra SP deste ano: um verdadeiro soco no estômago daqueles que tiram o ar, e que nos impede de sair sem sentirmos algo.
Ao longo da produção, Sirât nos lança em um território de tensão quase física, evocando a brutalidade e o nervosismo da sequência inicial de O Resgate do Soldado Ryan (1999, Steven Spielberg), porém, aqui a guerra é outra, mais contemporânea, mais próxima e, paradoxalmente, mais invisível a nós, protegidos por nossas bolhas de conforto, assim, o filme nos força a atravessar esta fronteira pelo olhar de um grupo de jovens, uma criança e um pai desesperado à procura da filha desaparecida.

Bruno Núñez Arjona, Sergi López em cena de Sirât- Divulgação Quim Vives
O filme começa com uma longa e hipnótica sequência de rave, movida por batidas eletrônicas que fazem o cinema vibrar, entre corpos suados e alheio aos arredores, surge Luiz, um homem de meia-idade que tenta, em meio à multidão, encontrar a filha perdida. Juntamente com Esteban, seu filho, e um grupo de jovens que almejam continuar a festa o máximo que der, embarcam nesta busca que rapidamente se transforma em uma jornada pela vastidão do deserto, um espaço ao mesmo tempo, físico e metafórico, rumando em direção ao nada, estreitando laços de fraternidade e descobrindo o quanto a festa era algo efêmero de uma guerra maior e interminável.
Oliver Laxe constrói Sirât com um falso otimismo inicial: acreditamos que Luiz poderá reencontrar sua filha, mas na medida que avançam pelas dunas, o deserto e a solidão se impõem com uma força cada vez mais devastadora. À medida que avançam pelas dunas, os personagens, e a audiência, são consumidos por uma sensação crescente de exaustão e impotência perto do mundo.
Ao contrário do herói incansável de Busca Implacável (2008, Pierre Morel), Luiz não é movido por vingança, mas por desespero e afeto. É um homem comum, vulnerável, que sobrevive à base da empatia e do apoio que recebe de quem o acompanha. A travessia se transforma em um microcosmo de humanidade, onde convivem medo, amizade e silêncio, remetendo à vastidão do universo Mad Max, onde os personagens viram náufragos terrestres na medida que só restam caminhões-tanque, areia e o peso do tempo.

Stefania Gadda, Tonin Janvier, Richard Bellamy e Sergi López em cena de Sirât- Divulgação Pyramid Distribution
Laxe filma a morte e a perda com uma secura quase documental. Não há preparação, trilha emocional ou apelo dramático, apenas o registro cru, direto, que faz o espectador sentir a ausência e o desconforto até o limite, somente restando a falta e a melancolia, afinal, em Sirât o caminho importa mais do que o destino, que jamais é concluído dentro da produção.
A força de Sirât repousa sobretudo em seu design de som e na fotografia arrebatadora, que transforma o deserto em personagem, vasto, impiedoso, quase divino. Planos abertos ressaltam a pequenez humana diante da imensidão árida, e a trilha sonora, entre o ruído e o silêncio, torna-se parte fundamental da narrativa, e mesmo nos momentos de fraternidade, paira a sensação de que todos estão irremediavelmente sós.
Sirât inaugura a 49ª Mostra SP, que acontece entre 15 e 30 de outubro, com um filme que não entrega respostas, apenas obstáculos, e o eco do vento no deserto lembrando que toda busca é, também, uma forma de se perder, talvez para sempre.
Pré indicado espanhol ao Oscar 2026, Sirât estreia nos cinemas nacionais no dia 15 de Janeiro de 2026, sob a distribuição da Retrato Filmes.
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