Dirigido por Christophe Gans, Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno traz novo olhar para a propriedade intelectual, demonstrando respeito e carinho pelos fãs.
Escrever sobre cinema exige, muitas vezes, direcionar o olhar de acordo com o objeto analisado. Ao longo do tempo, acabo transitando entre os tipos mais variados de filmes. Em alguns casos, é indispensável uma pesquisa prévia e um certo repertório: para Invocação do Mal 4: O Último Ritual (2025, Michael Chaves), por exemplo, assisti a todo o “Invocaverso”; já neste momento, leio O Morro dos Ventos Uivantes por conta da adaptação homônima de Emerald Fennell, que estreia em menos de um mês. Ainda assim, existem produções que surgem quase por acaso, e esse foi exatamente o caso de Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno.
Nunca joguei nenhum dos games da franquia e meu conhecimento prévio se resumia ao imaginário popular, em algum momento, apareceria um homem com uma pirâmide na cabeça. Como preparação, assisti de mente aberta a Terror em Silent Hill (2006, Christophe Gans), o que me deu um contexto inicial. Ainda que a sequência recém-lançada seja considerada independente, a mitologia desse universo é tão ampla que analisar apenas um filme de forma isolada inevitavelmente resulta em algo incompleto.

Cena de “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno”- Divulgação Paris Filmes
Ao revisitar o longa de 2006, percebi que a narrativa pouco dialogou comigo, embora o clima criado seja extremamente sedutor e as cenas de ação, muito bem estruturadas. Por isso, foi uma surpresa perceber que Regresso para o Inferno, adaptação direta do segundo jogo da franquia, aposta em uma abordagem muito mais psicológica e, na falta de palavra melhor, mais “parada” do que seu predecessor. Essa escolha, por si só, não é um problema, até o momento em que passa a ser.
Quando se joga um videogame de horror como Silent Hill, a experiência de vivenciar tudo em primeira pessoa, como o próprio personagem, é incomparavelmente mais imersiva do que qualquer adaptação em terceira pessoa poderia oferecer. Christophe Gans demonstra plena consciência dessa limitação ao optar por seguir fielmente a narrativa do material original, com pouquíssimas alterações, chegando inclusive a incorporar os três finais possíveis do jogo, porém, ainda sendo impossibilitado de transmitir a mesma tensão.
Ao reduzir significativamente as cenas de ação em relação ao primeiro longa, Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno se constrói de maneira mais simbólica e psicológica. Há longos momentos em que aparentemente nada acontece, mas são justamente esses intervalos que exigem atenção aos detalhes para montar o quebra-cabeça emocional que explica o desespero de James em encontrar Mary. A cidade se torna cada vez mais claustrofóbica e agonizante, e, curiosamente, essa leitura acaba sendo mais direta e compreensível do que a proposta apresentada pelo filme de 2006.
Acima de tudo, trata-se de um filme feito para os amantes do jogo. Os enquadramentos replicam planos icônicos do videogame, e a construção técnica nos coloca diretamente dentro da mente de James, criando uma atmosfera que oscila entre o onírico, o realista e o pesadelo, e trazendo personagens e monstros queridos e conhecidos do universo. Sem perder de vista o fio condutor, a discussão sobre luto, dor e arrependimento.
No entanto, ao deixar escapar oportunidades de explorar melhor os recursos do audiovisual, Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno perde a chance de alcançar o seu potencial como algo mais do que somente uma adaptação. Pequenas mudanças de ponto de vista ou escolhas mais ousadas de encenação poderiam ter potencializado consideravelmente a sensação de terror.

Jeremy Irvine em cena de “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno”- Divulgação Paris Filmes
Com pouco menos de uma hora e cinquenta minutos, a produção apresenta uma direção mais direta e objetiva do que seu antecessor, que, em contrapartida, apostava em maior ousadia estética e liberdades criativas dentro de seu próprio universo. Aqui, a sensação constante de déjà vu funciona como conforto para os fãs, mas pode ser cansativa para o público “comum”, que sente estar apenas observando algo que deveria ser vivido, e não apenas contemplado.
Ao final, Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno reafirma a força de uma propriedade intelectual rica e bem estabelecida. Entrega um filme mais denso, cheio de camadas e reviravoltas, mas sem nada realmente grandioso ou original. Se aproximando de franquias como Five Nights at Freddy’s: obras que, pelo peso do nome, mobilizam uma legião de fãs dispostos a revisitar, na tela grande, universos que os marcaram profundamente, mesmo quando a qualidade não é exatamente transcendental.
Distribuído pela Paris Filmes, Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno estreia nos cinemas no dia 22 de janeiro.
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“Adapta fielmente o jogo”, só que não. O Gans mudou o que quis e estragou totalmente a história, fazendo escolhas de roteiro estranhas e indo por uma rota totalmente diferente. Quem jogou de verdade sabe. Esse diretor é horrível e incompetente, além de narcisista. Na cabeça perturbada dele, as alterações na história são um uma correção do que ele acha que teria sido ideal, o que fez o filme ficar totalmente diferente de uma forma ruim, que chega até a tirar o sentido de algumas coisas que eram o ponto central no jogo. Ele fica usando a franquia pra escrever as próprias histórias pra farmar em cima dos fãs, mentindo que é gamer e que jogou Silent Hill no passado (só pode ter sido fumando altas ervas igual o James dele). Por sinal, a névoa dessa Silent Hill deve ser fumaça da maconha do James.
Bom dia Gabriella, tudo bem?
Somente por curiosidade, como assim “totalmente diferente de uma forma ruim”??
Ainda não assisti ao filme, pois devido a agenda de lançamentos de novos jogos estou com dificuldades de consultar trabalho, canal e tempo.
Mas como alguém que serve de “wikia” para vários canais de jogos, sei que nenhuma adaptação de jogo foi fiel até agora e duvido que essa também seja.
Os dois primeiros filmes não retrataram o conceito real de Silent.
Eles apenas colocaram o P.Head no filme para chamar a atenção e fazer o público ir.
Eu ainda vou me abster de comentar do filme sem conhecimento prévio
Mas mesmo não adaptando fielmente os jogos, as adaptações de Silent foram o melhorzinho que tivemos de jogos
(Não considero Mario/Sonic aqui pois são de CGI)