A Nação Zumbi provou que o tempo é um aliado da revolução. A turnê que celebra as três décadas de Afrociberdelia, um dos discos mais viscerais da nossa história, finalmente desembarcou no Rio de Janeiro para um encontro espiritual na Lapa no último final de semana com shows na sexta (08) e sábado (09).
E o que se viu no Circo Voador foi uma ocupação cultural sem precedentes: dois dias de ingressos totalmente esgotados para reverenciar o legado de Chico Science.
Nós, do Vivente Andante, estivemos presentes na segunda noite para testemunhar de perto por que a Nação Zumbi em seu habitat natural continua sendo a força mais avassaladora da música brasileira.

Afrociberdelia: o marco do movimento Manguebeat
Produzido pelo paulistano Eduardo Bidlovski (BID), Afrociberdelia é o segundo álbum da Nação Zumbi e o último gravado ao lado do mestre Chico Science.
O disco é um verdadeiro marco do movimento mangue por apostar em sonoridades que trouxeram mais tecnologia, psicodelia e batidas de hip hop em relação ao trabalho anterior da Nação.
No palco, ficou claro por que hinos como Manguetown, Macô e a célebre versão de Maracatu Atômico seguem sendo fundamentais para a nossa música.

O Furacão BNegão
Contudo, era uma noite especial. E a responsabilidade de abrir os trabalhos ficou com BNegão. E se alguém ainda tinha resquícios de cansaço da semana, ele tratou de aniquilar logo nos primeiros acordes.
Com seu show Metamorfoses Riddims e Afins, BNegão colocou o público para cima de um jeito poucas vezes visto em atos de abertura. Destaque para a divertida Dança do Patinho. Foi o combustível perfeito para uma plateia que já transbordava expectativa para o evento principal.
Afrociberdelia na íntegra: Um mergulho no Brasil psicodélico
Em um rápido papo com a banda nos bastidores antes do show, o percussionista Marcos Matias e o vocalista Jorge Du Peixe nos confidenciaram que este segue sendo um dos trabalhos mais emocionantes da trajetória da Nação Zumbi.
Jorge destacou que, mesmo três décadas depois, cantar essas faixas é levar a “diversão a sério” — uma referência ao espírito do disco que une discursos de impacto social à mais pura inovação sonora.
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O baile psicodélico de Afrociberdelia: Um mergulho no Brasil profundo
E isso pode ser comprovado logo quando a Nação Zumbi adentrou ao palco do Circo Voador. Logo no primeiro momento, nos primeiros acordes, nos primeiros versos, a catarse foi instantânea.
No palco, a Nação não apenas tocou; ela evocou uma entidade. Ver a obra-prima Afrociberdelia ser executada na íntegra foi um privilégio para os sentidos.
Assim que Mateus Enter e Cidadão do Mundo ecoaram pelos alto-falantes, o Circo Voador se transformou em uma massa uniforme de corpos em movimento, com rodas de pogo se abrindo e o público em um pula-pula frenético que fazia o chão da lona vibrar.
A cada faixa, a sensação era de que o tempo havia dobrado sobre si mesmo. A plateia, espremida e em transe, acompanhava cada nota com uma devoção rara. Momentos como a hipnótica Manguetown e a explosiva Macô mostraram por que esse disco é um marco tecnológico e psicodélico do movimento mangue.
E, claro, quando os tambores anunciaram o giro de Maracatu Atômico, a lona quase veio abaixo em um coro ensurdecedor que uniu gerações sob o signo da “diversão levada a sério” citada por Jorge Du Peixe.
O Bis, a lama e a glória: A maré encheu na Lapa
Após a jornada completa pelo álbum de 1996, a banda não permitiu que ninguém saísse da lona com sede. Atendendo ao clamor de um público que ignorava o cansaço, a Nação Zumbi retornou para uma trinca de álbuns posteriores que manteve a adrenalina no limite.
A lisérgica Um Sonho abriu caminho para o peso ensurdecedor de Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada, que fez as estruturas do Circo tremerem sob o impacto dos tambores de Toca Ogan, Marcos Matias e Da Lua.
Mas o ápice absoluto veio com o retorno de BNegão ao palco para o hino Quando a Maré Encher. Ver o Circo Voador espremido, com milhares de vozes em um coro visceral, foi a prova final de que a tecnologia do mangue e o peso das ruas seguem em constante estado de choque e evolução.
Por fim, saímos da lona com o corpo exausto, a alma lavada e a absoluta certeza de que, enquanto houver tambor, distorção e essa resistência cultural, o Recife não será apenas uma cidade distante; ele terá sempre um pedaço vivo e pulsante aqui, no coração da Cidade Maravilhosa.
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