Cinco anos após a criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), o modelo que prometia revolucionar a gestão dos clubes brasileiros entra em uma nova fase. Sancionada recentemente, a Lei nº 15.427/2026 atualiza as regras das SAFs, amplia exigências de governança, fortalece mecanismos de transparência e estabelece novas diretrizes voltadas à responsabilidade social e à preservação da identidade histórica dos clubes.
As mudanças chegam em um momento emblemático. Se, de um lado, o futebol brasileiro busca consolidar um ambiente mais seguro para investidores, do outro, clubes como o Vasco da Gama vivem um período de expectativa, rumores e intensos debates sobre o futuro de suas estruturas societárias.
Para Victor Amado, advogado especializado em Direito Desportivo e ex-presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB-GO, a nova legislação representa um amadurecimento natural do modelo implantado em 2021.
“Mais do que uma simples atualização normativa, a lei consolida uma nova etapa na profissionalização do futebol brasileiro ao combinar proteção institucional, transparência, responsabilidade social e segurança para investidores”, afirma.
Mais transparência e fiscalização
Entre as principais mudanças está o reforço das práticas de governança corporativa. A partir de agora, as SAFs passam a adotar mecanismos semelhantes aos exigidos de companhias abertas, incluindo a presença obrigatória de conselheiros independentes.
Segundo Victor Amado, a medida busca reduzir conflitos de interesse e aumentar a fiscalização sobre a atuação dos gestores.
“Agora as empresas passam a seguir regras semelhantes às adotadas por companhias de capital aberto. A ideia é fortalecer os mecanismos de fiscalização interna e evitar conflitos de interesse que possam prejudicar sócios minoritários ou comprometer a sustentabilidade do negócio”, explica.

Outra inovação relevante diz respeito à obrigatoriedade de divulgação dos beneficiários finais das sociedades. Na prática, isso significa que investidores precisarão deixar clara a estrutura de controle das empresas envolvidas nas operações.
“As SAFs deverão divulgar seus beneficiários finais, impedindo a utilização de estruturas complexas destinadas a ocultar quem efetivamente exerce o controle da empresa”, observa o especialista.
Futebol feminino ganha espaço
A nova legislação também amplia o alcance do modelo SAF ao permitir que projetos ligados ao futebol feminino e às ligas de clubes possam se estruturar formalmente nesse formato societário.
A expectativa é que a medida ajude a atrair novos investimentos para modalidades que vêm ampliando sua relevância esportiva e comercial.
“O futebol feminino vem conquistando espaço entre os torcedores e ampliando seu potencial para captar patrocínios e ganhar visibilidade. Agora os clubes poderão captar recursos de forma mais eficiente e desenvolver projetos de longo prazo voltados à profissionalização”, destaca Victor Amado.
A proteção da identidade dos clubes
Uma das maiores preocupações dos torcedores sempre esteve relacionada ao risco de descaracterização dos clubes após a entrada de investidores privados.
A nova lei procura responder a esse temor ao assegurar que as chamadas ações de Classe A permaneçam sob controle das associações civis originais.

Isso garante poder de veto sobre mudanças envolvendo nome, escudo, cores e sede.
“São poderes que passaram a ser intransferíveis em qualquer circunstância. Essa medida busca evitar que processos de venda ou reestruturação resultem na descaracterização de instituições que têm relevância histórica e social para suas comunidades”, afirma o advogado.
O Vasco no centro das atenções
Se há um clube que simboliza os desafios e as complexidades do modelo SAF no Brasil, esse clube é o Vasco da Gama.
Nos últimos meses, o cruz-maltino voltou ao centro das discussões envolvendo investidores, reestruturação financeira e perspectivas para o futuro da SAF.
Enquanto parte dos influenciadores e setores ligados ao clube apontam que uma venda estaria próxima de acontecer, informações oficiais permanecem escassas, alimentando dúvidas entre os torcedores.
A situação gera um paradoxo curioso. Ao mesmo tempo em que surgem especulações sobre uma negociação bilionária envolvendo a SAF vascaína, o clube segue adotando uma postura considerada conservadora no mercado de transferências, com consultas relacionadas a atletas de menor investimento.

Para muitos torcedores, a aparente falta de sintonia entre o discurso otimista e os movimentos práticos aumenta a sensação de incerteza.
Investimentos e perspectivas
Apesar das dúvidas envolvendo a venda da SAF, o Vasco tem anunciado avanços importantes em diferentes frentes.
Entre os movimentos recentes estão a formalização de projetos via leis de incentivo com apoio do empresário Marcos Lamacchia, estimados em cerca de R$ 15 milhões, a expansão do Centro de Treinamento com aquisição de novos terrenos e investimentos previstos na ordem de R$ 150 milhões, além da implantação de um elevador panorâmico na sede da Lagoa.
As iniciativas sinalizam uma tentativa de modernização da infraestrutura do clube, independentemente da definição sobre o futuro societário.
Ao mesmo tempo, especulações de mercado apontam que uma eventual negociação envolvendo a SAF poderia alcançar cifras bilionárias, refletindo o potencial econômico associado à marca Vasco.
O que diz o estatuto do Vasco
Em meio aos rumores, uma discussão jurídica ganhou destaque entre sócios e torcedores: afinal, uma eventual venda do controle da SAF poderia ocorrer sem passar pelo Conselho Deliberativo?
A interpretação predominante aponta que não.
De acordo com dispositivos previstos no estatuto do clube, especialmente os artigos 136 e 137, operações que envolvam transferência de controle exigiriam pareceres dos Conselhos de Beneméritos e Fiscal, além de aprovação do Conselho Deliberativo com quórum qualificado.

A exigência incluiria análises relacionadas à capacidade financeira, reputação e integridade do potencial investidor.
Por outro lado, o artigo 138 estabelece uma alternativa importante: caso o Conselho Deliberativo rejeite a proposta ou deixe de deliberar após tentativas sucessivas, a Diretoria poderá convocar uma Assembleia Geral Extraordinária para que os sócios decidam sobre o tema.
Nesse cenário, a aprovação dependeria de maioria simples entre os presentes.
Judicialização como fator de risco
Outro elemento que contribui para o ambiente de incerteza envolve disputas judiciais relacionadas à SAF.
Questões envolvendo a empresa Matix, que obteve decisões judiciais relacionadas à negociação de participações societárias, demonstram como conflitos jurídicos podem afetar a previsibilidade dos processos.
Embora acusações divulgadas recentemente envolvendo a empresa e outros agentes do mercado esportivo ainda dependam de esclarecimentos e eventual apuração pelas autoridades competentes, o episódio reforça um dos principais objetivos da nova legislação: ampliar a segurança jurídica para investidores e instituições.
Além das mudanças relacionadas à governança, a nova lei estabelece que as SAFs deverão implementar programas voltados à educação e à inclusão social para permanecerem enquadradas no Regime Tributário Específico do Futebol.
Para Victor Amado, a medida reforça o papel social exercido pelos clubes.
“A nova legislação deixa claro que os incentivos fiscais concedidos devem ser acompanhados de benefícios concretos para a sociedade. O futebol vai além da geração de receitas e do entretenimento. Também assume um papel relevante na promoção de oportunidades, cidadania e transformação social”, afirma.
Um novo capítulo para o futebol brasileiro
A atualização das regras das SAFs evidencia que o futebol brasileiro vive um processo contínuo de transformação.

Se os primeiros anos foram marcados pela busca por investidores e pela necessidade de reorganização financeira, o momento atual aponta para um estágio de maior sofisticação regulatória.
Ao combinar transparência, proteção institucional, responsabilidade social e mecanismos de controle, a nova legislação tenta equilibrar interesses econômicos e preservar o patrimônio histórico e afetivo representado pelos clubes.
No caso do Vasco, a discussão sobre uma eventual venda da SAF expõe os desafios dessa nova realidade: conciliar urgências financeiras, expectativas esportivas, exigências legais e a participação ativa de uma torcida que acompanha cada movimento com atenção.
Mais do que definir o futuro de uma única instituição, o debate em torno das SAFs ajuda a desenhar os próximos capítulos do futebol brasileiro — um esporte que movimenta bilhões, mas que continua sendo, acima de tudo, uma expressão da identidade e da paixão de milhões de pessoas.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



