O Oscar abre novas janelas. O cara está se atualizando. Enquanto isso, há (ainda) cinéfilos e críticos que pararam no tempo. Ignoram o streaming, por exemplo. Seria como se dissessem que o cinema falado acabaria com o cinema mudo…
Curto streaming, aproveito bastante entre filmes e séries. Mas não deixo de ir ao cinema. É um dos maiores prazeres que tenho na vida. Ainda por cima, sonhava quando criança em ver os filmes antes e falar disso como trabalho. E é exatamente uma das coisas que faço hoje em dia. O pequeno Alvinho sorriria orgulhoso.
Contudo, as coisas mudam. Até o Oscar, a mais famosa premiação de cinema do mundo, muda.
A verdade? O Oscar passa por uma das fases mais decisivas de sua história. Mudanças estruturais na forma de exibição, na composição dos votantes e no perfil dos filmes indicados revelam uma Academia mais aberta a narrativas diversas, produções internacionais e obras que dialogam diretamente com o público contemporâneo.

Esse movimento fica evidente já na lista de indicados mais recente, que rompe com padrões tradicionais e destaca produções de gêneros variados, origens distintas e linguagens menos convencionais. No centro dessa virada está Pecadores, que se torna o filme com o maior número de indicações da edição e simboliza a nova cara do Oscar.
Pecadores lidera indicações e redefine o que é “filme de Oscar”
O desempenho de Pecadores marca um ponto de inflexão na relação da Academia com o cinema de gênero. O longa, que mistura elementos de ação, suspense, drama e musical, conquista um número recorde de indicações e supera produções mais alinhadas ao perfil clássico de “filme de premiação”. Suas camadas são inúmeras, é um longa claramente contra o racismo, cuja base valoriza a cultura negra de uma maneira linda e estilosa.
O reconhecimento mostra que os votantes estão mais conectados com obras que conseguem unir impacto popular e ambição artística. Pecadores dialoga com o público amplo sem abrir mão de uma proposta estética forte, e essa combinação se revela decisiva para sua força na temporada.

A ascensão do filme também reflete mudanças iniciadas nos últimos anos, quando a Academia ampliou seus quadros de votação após críticas sobre falta de diversidade. Com mais profissionais de diferentes países, gerações e origens culturais, o perfil dos indicados se torna mais plural, e produções como Pecadores passam a ocupar o espaço que antes era restrito a dramas históricos ou biografias tradicionais.
Cinema internacional ganha novo peso com destaque para O Agente Secreto
Outro sinal claro dessa transformação é a presença cada vez mais forte de filmes fora do eixo tradicional de Hollywood nas principais categorias. Entre eles, O Agente Secreto surge como um dos títulos que consolidam essa abertura para o cinema internacional.
O longa brasileiro, dirigido por Kleber Mendonça Filho, não aparece apenas como representante regional, mas como obra competitiva em categorias de grande visibilidade. O reconhecimento reforça uma tendência recente da Academia de integrar produções de diferentes países às disputas centrais, e não apenas à categoria de filme internacional.

Essa ampliação de espaço demonstra que o Oscar passa a enxergar o cinema mundial como parte orgânica da indústria, e não como um segmento isolado. A visibilidade de O Agente Secreto ajuda a consolidar o Brasil e a América Latina como polos criativos relevantes no cenário global.
Oscar também muda fora da tela
As transformações não se limitam à escolha dos indicados. A própria forma de exibição da cerimônia passa por mudanças profundas. Após décadas de transmissão em TV aberta, a Academia firma acordo para levar o evento ao ambiente digital nos próximos anos, com transmissão global por plataforma de streaming e, especialmente, o YouTube.
A decisão reflete uma tentativa de acompanhar o comportamento do público, que consome cada vez mais conteúdo online e em múltiplas telas. A mudança também amplia o alcance internacional da premiação, permitindo que espectadores de diferentes países acompanhem o evento de forma mais acessível.
Ao mesmo tempo, essa migração sinaliza um reposicionamento estratégico da cerimônia, que busca dialogar com gerações mais jovens sem perder o público tradicional. A presença digital facilita a circulação de trechos, discursos e apresentações, ampliando a vida útil do evento para além da transmissão ao vivo.

A indústria do entretenimento vive um período de reconfiguração acelerada, com o crescimento do streaming, mudanças nos hábitos de consumo e desafios enfrentados pelas salas de cinema. Nesse contexto, o Oscar precisa se reinventar para continuar relevante.
A abertura para novos gêneros, o fortalecimento do cinema internacional e a adaptação às plataformas digitais indicam que a Academia compreende esse cenário. Em vez de resistir às mudanças, a premiação passa a incorporá-las como parte de sua própria evolução.
Filmes como Pecadores representam a capacidade do Oscar de reconhecer obras que dialogam com o presente, enquanto títulos como O Agente Secreto reforçam a ideia de que o cinema global ocupa espaço central na conversa.
Ao combinar tradição e adaptação, a maior premiação do cinema tenta garantir sua sobrevivência em um mercado que já não funciona como há duas ou três décadas. O resultado é um Oscar que se aproxima mais do público, amplia suas fronteiras culturais e redefine o que significa ser um “filme de Oscar”.

Na minha ordem, entre os indicados a Melhor Filme, o maior destaque crítico fica com Pecadores. O longa de Ryan Coogler é apontado como uma das obras mais marcantes do ano ao unir drama, musical e horror com forte identidade autoral. A produção equilibra espetáculo e discurso ao tratar da força transformadora da arte negra, com cenas consideradas das mais inventivas da temporada e um conjunto técnico e artístico amplamente elogiado.
Logo atrás aparece O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que reforça o peso do cinema brasileiro na corrida. Ambientado durante a ditadura militar, o thriller político mistura suspense, memória e reflexão histórica para mostrar como regimes autoritários moldam vidas e narrativas. O filme é descrito como denso, provocador e cheio de camadas, deixando marcas duradouras no espectador.
Entre os demais concorrentes, o topo do ranking crítico fica com One Battle After Another, visto como um épico multifacetado que combina ação, sátira política e drama com grande ambição formal.

Marty Supreme não me pega, apesar de ser elogiado pela energia nervosa e pela atuação de Timothée Chalamet, o qual acho sem sal e superestimado, para ser sincero.
Na sequência surgem Sentimental Value, celebrado pelo foco nos atores e nos bastidores emocionais do fazer artístico, e Bugonia, thriller de Yorgos Lanthimos que usa ficção científica para discutir paranoia e degradação social. Hamnet vale pelo peso dramático e pelas atuações de Jessie Buckley e Paul Mescal. Tem grandes chances de ganhar, bem como levou o Globo de Ouro.

Por outro lado, a indicação de F1 surpreendeu a muitos. Não tanto a mim. O filme é ótimo, redondo, e merecia sim ser valorizado. Boa, Oscar!
Fechando a lista aparece Frankenstein, da Netflix, olha o streaming aí! A nova releitura de Guillermo del Toro foi bastante elogiada pela estética mas vista como menos impactante que outros trabalhos do diretor. É um bom filme. Train Dreams é um drama contemplativo que divide opiniões, embora reconhecido pela fotografia e pelas atuações.
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