Quanto tempo uma pessoa perde no transporte público? Quais obstáculos determinados corpos enfrentam para atravessar a cidade? E quem consegue ocupar os espaços urbanos com liberdade? Essas questões orientam Paragem, espetáculo inédito de dança contemporânea que está em cartaz no Multiuso do Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro.
Idealizada por Júlia Fernandez e Luna Leal, a montagem transforma experiências cotidianas de deslocamento em movimentos, imagens e situações coreográficas. A proposta aproxima dança, mobilidade urbana e cidadania para discutir como as desigualdades sociais interferem no acesso ao trabalho, à educação, à saúde, à cultura e ao lazer.
A temporada vai até 18 de outubro de 2026, com oito apresentações de quinta-feira a domingo. Todas as sessões contam com intérprete de Libras e audiodescrição. O projeto também prevê ações de mobilização e sensibilização para pessoas com deficiência, incluindo transporte para esse público.
Contemplado pelo edital de cultura Sesc RJ Pulsar, o espetáculo tem realização do Sesc Rio e produção da eLabore.Kom. A pesquisa parte de uma pergunta simples, mas abrangente: como cada pessoa experimenta a cidade e seus caminhos?
Em Paragem, caminhar, esperar, embarcar, atravessar e chegar deixam de ser apenas ações rotineiras. Esses gestos se tornam matéria-prima para uma investigação artística sobre o corpo em movimento e as condições que determinam a circulação pela cidade.
A montagem reúne sete cenas que exploram situações comuns a quem utiliza transportes públicos. Longos trajetos, esperas, barreiras físicas e sociais e diferenças no acesso aos territórios urbanos aparecem como elementos de uma composição que transforma experiências individuais em reflexão coletiva.
O corpo ocupa uma posição central nessa pesquisa. Ao mesmo tempo que atravessa os espaços, ele registra cansaço, ansiedade, expectativa, memória e as limitações impostas pela estrutura urbana. A coreografia parte dessas sensações para revelar movimentos que já existem na vida cotidiana, mas que nem sempre percebemos como formas de expressão.
Júlia Fernandez explica que a pesquisa nasceu da experiência das artistas nos transportes públicos. Os passageiros, os sons e os deslocamentos passaram a funcionar como referências para a criação das cenas.
“Em Paragem queremos recriar os estados, remontando histórias cotidianas que deslizam entre memória e esquecimento”, comenta Júlia. A artista descreve a proposta como uma investigação dos momentos de suspensão que surgem em meio à correria diária.
A intenção é observar aqueles instantes em que a atenção se desvia da rotina. Uma espera na plataforma, um trajeto repetido ou o encontro com outros passageiros pode despertar lembranças, sensações e pensamentos inesperados.
A pesquisa também busca se aproximar das performances cotidianas para identificar a dança presente nesses movimentos. Nessa perspectiva, a dança contemporânea funciona como uma linguagem capaz de comunicar experiências sem depender necessariamente da palavra falada.
De Central Deriva a Paragem
O espetáculo dá continuidade à pesquisa desenvolvida em Central Deriva, projeto concebido originalmente para apresentações em plataformas de trem do estado do Rio de Janeiro.
A experiência anterior investigava a relação entre dança e espaços de circulação. Agora, Paragem leva essas questões para o palco, ampliando as possibilidades de construção cênica e aprofundando a observação das sensações provocadas pelos deslocamentos urbanos.
A mudança de contexto não significa abandonar a pesquisa original. O novo trabalho retoma materiais, experiências e caminhos desenvolvidos anteriormente, mas apresenta outras perspectivas sobre o mesmo universo.
Luna Leal destaca que a criação busca promover identificação entre a obra e o público. Para ela, a cidade atravessa a vida de todos, mas cada corpo enfrenta condições diferentes para circular, esperar e disputar espaço.
“Eu espero que Paragem chegue ao público como uma experiência de encontro e de reconhecimento”, afirma Luna.
A artista explica que a montagem discute como as desigualdades sociais influenciam o tempo gasto nos trajetos e as barreiras encontradas por diferentes pessoas. O deslocamento, portanto, não aparece como uma experiência neutra. Ele depende das condições de transporte, da infraestrutura urbana e das características de quem precisa percorrer esses caminhos.
Luna também espera que o espetáculo desperte lembranças e sensações que ultrapassem a experiência imediata da apresentação. “Paragem é um convite para sonhar”, conclui a artista.
A discussão proposta pela montagem vai além das condições de transporte. O acesso aos espaços urbanos influencia diretamente as oportunidades de participação na vida social e cultural.
Uma cidade pode oferecer equipamentos públicos, escolas, hospitais, locais de trabalho e espaços de lazer, mas a existência desses serviços não garante que todos consigam alcançá-los nas mesmas condições.
Distância, tempo de viagem, acessibilidade e infraestrutura interferem na maneira como cada pessoa utiliza a cidade. Para quem enfrenta barreiras físicas ou depende de trajetos longos, circular pode exigir esforço e planejamento adicionais.
Paragem transforma essas diferenças em questão artística. Ao observar os corpos que circulam, param e atravessam os espaços, a montagem propõe uma reflexão sobre quem consegue ocupar a cidade e quais obstáculos limitam essa experiência.
O espetáculo também aproxima a mobilidade de temas como desigualdade social e cidadania. O direito à cidade envolve não apenas chegar a um destino, mas participar da vida urbana e acessar os recursos que ela oferece.
Ao levar essas questões para a dança contemporânea, Júlia Fernandez e Luna Leal convidam o público a observar os próprios trajetos por outra perspectiva. O caminho habitual pode revelar relações de poder, diferenças de acesso e experiências que costumam passar despercebidas na rotina.
Acessibilidade faz parte da proposta
A acessibilidade ocupa um lugar central em Paragem. Todas as apresentações terão interpretação em Libras e audiodescrição, ampliando as condições de participação de pessoas surdas e cegas ou com deficiência visual.
O projeto também prevê ações de mobilização e sensibilização voltadas especialmente às pessoas com deficiência, além de transporte para esse público.
A iniciativa considera que o acesso à cultura começa antes da entrada no espaço de apresentação. Garantir recursos de acessibilidade dentro do teatro é fundamental, mas as condições para chegar ao local também podem representar uma barreira.
Essa preocupação dialoga diretamente com o tema do espetáculo. Ao discutir os obstáculos enfrentados por diferentes corpos na cidade, a produção procura considerar a acessibilidade também na organização da própria experiência cultural.
A composição da equipe acompanha essa proposta de pluralidade. O projeto reúne profissionais diversos, com predominância de mulheres e participação de pessoas com e sem deficiência.
Dessa forma, a acessibilidade não aparece apenas como um recurso complementar. Ela integra a concepção da iniciativa e amplia o diálogo entre a pesquisa artística e as experiências concretas de circulação urbana.
A direção artística, a coreografia e a interpretação ficam a cargo de Júlia Fernandez e Luna Leal, responsáveis pela idealização do espetáculo. Henrique Manoel Pinho assina a co-direção, enquanto Sara Fagundes responde pela cenografia e Alice Cruz pelo figurino, com assistência de Silvana Rocío.
A iluminação é de Wladimir Alves e a trilha sonora, de Lucas Torres. A direção de produção fica com Kirce Lima, e Luana Bezerra assume a produção executiva. Jacqueline da Silva responde pela gestão financeira.
A equipe conta ainda com Natália Anjos na fotografia, Bruno Menezes na captação de vídeo, Alessandra Costa na assessoria de imprensa e Marcela Cavalcanti na gestão das mídias sociais. Vanessa Buna assina a consultoria de acessibilidade, e Árvore Vicente atua como intérprete de Libras.
Com oito apresentações no Sesc Copacabana, Paragem transforma o deslocamento urbano em ponto de partida para uma investigação sobre os corpos e suas relações com a cidade. A montagem propõe observar os trajetos cotidianos não apenas como caminhos entre dois lugares, mas como experiências que revelam desigualdades, memórias e possibilidades de encontro.
Serviço
Espetáculo: Paragem, dança contemporânea.
Temporada: de 8 a 18 de outubro de 2026.
Dias: de quinta-feira a domingo.
Horários:
- Quintas e sextas-feiras, às 19h.
- Sábados e domingos, às 17h.
Local: Multiuso do Sesc Copacabana.
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro (RJ).
Ingressos:
- Inteira: R$ 40.
- Conveniados: R$ 36.
- Conveniado empresário: R$ 31.
- Credencial Plena Sesc: R$ 28.
- Meia-entrada: R$ 20.
- Gratuito para o público PCG.
Classificação indicativa: 14 anos.
Acessibilidade: todas as apresentações terão Libras e audiodescrição. O projeto também prevê ações de mobilização e transporte para pessoas com deficiência.
Informações: (21) 3180-5226.
Bilheteria: de terça a sexta-feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 19h.
Realização: Sesc Rio.
Idealização: Plataforma Central Deriva.
Produção: eLabore.Kom.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



