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Cena de "Full Moon"- Divulgação Mostra SP
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Full Moon’ é coming of age dentro de um delicado retrato sobre família e aceitação

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 7 de outubro de 2026
6 Min Leitura
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Cena de "Full Moon"- Divulgação Mostra SP
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Dirigido por Jeong Ji-hye, Full Moon começa como um coming of age tradicional, mas, ao voltar seu olhar para as relações familiares, encontra uma narrativa muito mais potente sobre aceitação e amadurecimento

Full Moon começa como um filme adolescente que já vimos tantas vezes: um grupo de garotas ensaia uma performance de dança para o festival da escola. Dentro desse cenário, percebemos que Hae-mi deseja algum destaque no grupo, embora não seja a melhor dançarina, e que se encontra cada vez mais isolada de suas amigas, tanto física quanto esteticamente. A isso se soma a vergonha que sente dos próprios pais: o pai tem síndrome de Down, enquanto a mãe apresenta comportamentos que sugerem estar no espectro autista, algo que o filme não especifica e que, felizmente, também não precisa especificar.

Full Moon poderia facilmente cair nos clichês do gênero, porém, encontra outro caminho ao deslocar seu foco da relação de Hae-mi com as amigas para aquela que mantém com os pais. O que está em jogo não é uma grande ruptura familiar, mas o processo de compreender pessoas que, apesar de amarem profundamente a filha, também encontram dificuldades para entender suas necessidades e seu universo. Assim, o principal arco pertence à própria Hae-mi, que aos poucos abandona a necessidade de que tudo se encaixe em um modelo de perfeição e aprende a aceitar aquilo que simplesmente é.

Tecnicamente, existe um cuidado evidente na fotografia em representar esse universo de maneira naturalista. Em alguns momentos, porém, o branco se torna excessivamente estourado, quase agressivo, enquanto a composição musical flerta ocasionalmente com uma sentimentalidade bastante característica dos k-dramas mais exagerados. Ainda assim, são escolhas que, dentro da proposta do filme, acabam encontrando seu lugar e contribuem para essa atmosfera simultaneamente cotidiana e melodramática.

JUNG Min-ju em cena de "Full Moon"- Divulgação Mostra SP

JUNG Min-ju em cena de “Full Moon”- Divulgação Mostra SP

O mais curioso é que não existe um conflito grandioso entre Hae-mi e seus pais. Diferentemente de muitos coming of age estadunidenses, Full Moon constrói sua jornada muito mais pela observação e pela aceitação do que pela ação. Os clichês continuam presentes, incluindo o conhecido movimento de abandonar a nova e interessante amizade para retornar às antigas amigas que a haviam deixado de lado, mas é justamente na sutileza e no silêncio que a produção encontra seus momentos mais significativos.

Nesse sentido, o destaque precisa ser dado ao figurino de Kim Hee-jae, que posiciona Hae-mi visualmente em um lugar distinto de suas amigas. Aos poucos, porém, acompanhamos como ela passa a se sentir mais confortável dentro da própria pele. E o interessante é que essa transformação não acontece porque alguém a conduz até lá, mas porque ela própria observa, experimenta e amadurece.

Hae-mi começa a perceber que nenhuma família é perfeita e que sua felicidade não depende necessariamente daquilo que ela imaginava. Isso se torna especialmente evidente na trajetória da mãe, que no começo entrava em conflito com a filha por conta desta vontade, e aos poucos começa finalmente a se abrir para o mundo por meio da amizade com uma influenciadora.

Em Full Moon, os problemas nunca são apresentados de maneira explícita. Eles surgem por meio do silêncio, de pequenos acontecimentos e, principalmente, do olhar de Hae-mi sobre aquilo que acontece ao seu redor. Dessa forma, sua evolução também se torna a evolução de quem assiste. O problema é que o ritmo escolhido para sustentar essa observação é extremamente lento. Em determinados momentos, a contemplação deixa de ser delicada e passa a ser enfadonha, sobretudo quando situações que poderiam exigir maior participação da jovem acabam reduzidas a novos momentos de observação.

JUNG Min-ju em cena de "Full Moon"- Divulgação Mostra SP

JUNG Min-ju em cena de “Full Moon”- Divulgação Mostra SP

Mais próximo do final, Full Moon altera sua paleta de cores, abandonando parcialmente o branco que marcou boa parte da produção em favor de tons predominantemente bege. É justamente nesse momento que o filme parece finalmente encontrar sua forma mais madura. Afinal, o problema nunca esteve nos pais, mas no olhar de Hae-mi sobre eles. É ela quem deposita sobre a família um peso que ninguém mais parece colocar.

Por isso, quando finalmente os defende diante da tia, assumindo uma posição quase parental, como um pai que protege os próprios filhos, a inversão de papéis constrói uma das cenas mais potentes do filme. Hae-mi precisou crescer rápido demais e, sem perceber, passou a ocupar o lugar de adulta dentro daquela família. Não porque seus pais fossem incapazes de cuidar dela, mas porque amadurecer também significa compreender que aqueles que nos criaram são, antes de tudo, pessoas imperfeitas.

Participando da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Full Moon terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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