Pluribus imagina um mundo onde a felicidade deixou de ser uma experiência psíquica para se tornar um efeito biológico. Na boa série de ficção científica da Apple TV, dos mesmos criadores da antológica Breaking Bad, um vírus se espalha globalmente e passa a regular o estado emocional da população, suprimindo tristeza, luto, ansiedade e conflitos internos. Apenas treze pessoas permanecem imunes, preservando a capacidade de sentir toda a complexidade da vida psíquica em uma sociedade organizada pela euforia permanente.
Nesse cenário, a felicidade não nasce de um processo interno de elaboração, mas da negação sistemática do sofrimento. A dor deixa de ser linguagem e passa a ser tratada como falha de funcionamento. O resultado não é uma humanidade mais consciente, mas uma coletividade emocionalmente neutralizada, com vínculos enfraquecidos, pouca agência e uma existência marcada pela superficialidade afetiva.
A personagem Carol Sturka, uma das imunes, encarna esse contraste. Enquanto o mundo ao seu redor vive em um estado de contentamento químico constante, ela continua a experimentar angústia, desejo, ironia e vazio. Sua condição destaca a diferença entre viver — com conflitos e contradições — e apenas existir sob uma anestesia emocional. É a partir dessa tensão que a série dialoga diretamente com a forma como a sociedade contemporânea lida com o sofrimento psíquico.

Para a psicóloga Maria Klien, a ficção Pluribus constrói uma metáfora potente sobre a cultura atual.
“A série propõe uma imaginação radical do que acontece quando a dor deixa de ser percebida como linguagem e passa a ser vista como ruído a ser eliminado. Quando o sofrimento é removido quimicamente, não se produz integração psíquica, mas anestesia. E uma mente anestesiada perde a capacidade de sustentar identidade, ética e responsabilidade”, afirma.
A leitura psicológica sugerida por Pluribus aponta para uma mudança cultural na forma de compreender as emoções. Tristeza, frustração e luto passam a ser vistos como defeitos a serem corrigidos rapidamente, e não como experiências humanas fundamentais. O cuidado deixa de ser escuta e elaboração para se tornar ajuste e supressão.
“Vivemos a fantasia de uma homeostase permanente, em que qualquer variação emocional é entendida como ameaça ao desempenho. Nesse modelo, o sintoma deixa de ser expressão da psique e passa a ser tratado como erro técnico que precisa ser silenciado para que o indivíduo continue produtivo”, observa Klien.

Essa lógica, segundo a psicóloga, também atravessa o debate atual sobre saúde mental, muitas vezes reduzido à busca por estabilidade entendida como ausência de desconforto. O sofrimento, em vez de ser parte do processo de constituição subjetiva, é visto como obstáculo à funcionalidade.
“A ficção mostra que, quando o sintoma desaparece sem ser simbolizado, o sujeito não se torna mais livre — apenas mais ajustado a um estado de dormência. O que se perde é a possibilidade de elaborar, de dar significado à experiência, de fazer escolhas que não sejam apenas respostas automáticas”, completa.
Na série, a felicidade química leva a uma espécie de apatia funcional: as pessoas seguem vivendo, mas sem atrito interno. Do ponto de vista psicológico, é justamente esse atrito que estrutura valores, escolhas e vínculos. Sem conflito, não há profundidade emocional.
“Nós sofremos por sentir, mas é esse atrito que sustenta a experiência de ser humano. Quando a emoção é mantida à distância, não desaparece só a dor — desaparecem também o desejo, a curiosidade, a capacidade de se posicionar no mundo. O que resta é uma forma de existência sem densidade psíquica”, conclui Maria Klien.
Assim, Pluribus funciona como um espelho de uma época que busca soluções rápidas para estados internos complexos. A promessa de contentamento constante, livre de conflitos, reflete uma cultura que valoriza a ausência de dor mais do que o trabalho psíquico de atravessá-la. A série sugere que saúde mental não é a eliminação dos sintomas, mas a coragem de escutar o que emerge da experiência emocional e transformá-lo em sentido.
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