Desde o lançamento do documentário de bastidores, as críticas em torno de Stranger Things não diminuíram. Entre decisões criativas questionáveis, arcos apressados e escolhas narrativas inconsistentes, um ponto específico passou a incomodar especialmente o público. Uma das melhores personagens virou objeto de decoração.
Não se trata de limitações orçamentárias nem da ausência de ideias grandiosas. O problema central é de escolha narrativa. Stranger Things sempre se orgulhou de tratar seu elenco com equilíbrio, dando função dramática até aos personagens aparentemente secundários. No entanto, ao chegar ao desfecho da história, a série falha justamente com quem carregou grande parte do peso emocional nos anos anteriores.
Ela praticamente desaparece na temporada 5
Vivida por Sadie Sink, Max surge de forma extremamente limitada desde o início da temporada. Considerando o estado em que a personagem ficou ao final da quarta temporada, sua ausência inicial é compreensível. O problema é que o tempo passa, os episódios avançam, e Max permanece presa a um limbo narrativo desconfortável, enquanto todos os outros personagens seguem em frente, reagindo às consequências do caos anterior e se preparando para o confronto final com Vecna, interpretado por Jamie Campbell Bower.

A personagem, introduzida na segunda temporada, cresceu gradualmente na terceira e se tornou o coração emocional absoluto da quarta temporada. Sua corrida desesperada no Mundo Invertido ao som de Running Up That Hill, de Kate Bush, é frequentemente apontada como o ponto mais alto de toda a série. Eu sou um daqueles que sente assim. Para mim foi o melhor momento de TODA a série. Porém, após sobreviver ao ataque do vilão, Max é deixada em suspensão por tempo demais, sem importância real na história.
Quando Max finalmente reaparece de forma mais concreta, isso acontece no episódio “Chapter Three: The Turnbow Trap”. Nesse momento, ela passa a guiar Holly dentro da mente de Vecna e ajuda a explicar ao público como o vilão funciona e quais são suas fragilidades. Narrativamente, isso é relevante, mas também revela o problema: Max deixa de ser personagem para virar recurso expositivo.
A série perde uma oportunidade valiosa de explorar sua psique após o trauma. Questões como culpa do sobrevivente, medo de perder seu lugar no grupo, frustração por não controlar o próprio corpo e a sensação de se tornar irrelevante jamais são aprofundadas. Tudo isso poderia ter sido desenvolvido em pequenas cenas, sem comprometer o ritmo da temporada. Espaço havia — afinal, a série encontra tempo para longos diálogos expositivos e revisitações emocionais já compreendidas pelo público.
Mais grave ainda é o silêncio sobre o que Max escreveu nas cartas deixadas na quarta temporada, pouco antes de visitar o túmulo de Billy, vivido por Dacre Montgomery. Em uma temporada final, esse tipo de lacuna pesa.

Quando Max desperta do coma e retorna ao convívio dos demais, a situação não melhora de fato. Em vez de recuperar protagonismo, ela se torna uma presença passiva. Observa mais do que age. Sente, mas não interfere. A própria série tenta justificar isso com diálogos que apontam sua fragilidade física, mas o problema não é ação física — é narrativa.
Depois de passar tanto tempo dentro da mente de Vecna, Max teria repertório emocional e perceptivo para identificar armadilhas, alertar o grupo ou mesmo questionar decisões arriscadas. Enquanto o roteiro concentra esse papel em Will, interpretado por Noah Schnapp, Max é deixada de lado, mesmo tendo experiências igualmente profundas com o vilão.
Sua participação mais relevante nesse estágio se resume a ajudar Eleven, vivida por Millie Bobby Brown, e Kali a localizar Henry e as outras crianças. Para uma personagem com o histórico de Max, isso soa insuficiente.
Emoção sem consequência
As cenas entre Max e Lucas, interpretado por Caleb McLaughlin, funcionam emocionalmente graças ao talento dos atores. No entanto, elas não corrigem o problema estrutural: Max não impacta os eventos finais da história. Sua presença não altera decisões, não muda rumos, não gera consequências.

A frustração cresce justamente pela comparação com a quarta temporada, quando Max simbolizava o enfrentamento do trauma, do medo da morte e da culpa. Transformá-la em uma figura quase decorativa no encerramento da série transmite a sensação de que Stranger Things não soube lidar com o sucesso do próprio arco. Em vez de evoluí-lo, congelou-o.
Uma falha que pesa no legado de Stranger Things
Stranger Things entrega um final emocional e continua sendo uma produção relevante da Netflix, mas erros como o tratamento dado a Max são difíceis de ignorar. Não se trata de maldade criativa, e sim de indecisão. A série sempre defendeu que todos os membros do grupo importam. Na temporada final, essa lógica falha — justamente com uma de suas personagens mais queridas e bem construídas.
E é isso que torna o desperdício de Max Mayfield tão frustrante. Não porque ela merecia um final grandioso, mas porque merecia um final que fizesse jus à sua importância. Concorda?



