Dirigido por Francis Lawrence, A Longa Marcha fica entre a fidelidade ao romance e novos olhares políticos, em produção que não teme mostrar a violência
Apesar de Carrie: A Estranha (1974) ter sido o primeiro livro publicado de Stephen King, obra que lançou sua carreira aclamada como gênio do horror, A Longa Marcha já havia sido concebido anos antes, ainda na juventude do autor. Publicado apenas em 1979, sob o pseudônimo de Richard Bachman, o romance reflete as angústias de uma geração marcada por mudanças, crises identitárias e econômicas, e pela Guerra do Vietnã, com jovens convocados para uma experiência de morte certa, sem entender plenamente o peso, ou a gravidade, do que enfrentariam.
Quase 60 anos após a criação da história, a adaptação dirigida por Francis Lawrence encontra um novo espelho: os Estados Unidos da contemporaneidade, em crise econômica e política, onde a juventude é quem mais sofre com as contradições do presente. Conhecido pela sua experiência em distopias, principalmente após ter dirigido quatro filmes da franquia Jogos Vorazes, Lawrence entrega algo visceral, que ao mesmo tempo honra o legado de King e atualiza seus questionamentos.

Mark Hamill em cena de A Longa Marcha-Divulgação Lionsgate
Embora faça ajustes significativos, no livro são 100 competidores, no filme reduzidos para 50, um de cada estado norte-americano, tornando tudo mais intimista, e aumentando a discussão sobre o impacto nacionalista nestes meninos, a obra mantém a essência brutal do material original. Jovens obrigados a caminhar indefinidamente sob a promessa de dinheiro e realização de sonhos, caso parem é morte certa. E, a pedido do próprio King, as mortes não poderiam ser amenizadas, devendo aparecer em tela do modo como descritas no livro: cruas, diretas e incômodas.
O impacto é sentido já no primeiro ato, com a queda de um dos competidores, vítima de exaustão. E, como declarou Lawrence: “não queria que cada morte fosse apenas choque e horror, mas que tivesse um peso emocional distinto, para que o público experimentasse todas as nuances da perda.” Essa escolha torna a violência gráfica não apenas espetáculo, como ocorre em Jogos Vorazes por exemplo, quando torcemos para Katniss matar seus inimigos, enquanto aqui, as mortes atuam mais como catalisador de humanidade, lembrando ao público que cada morte é singular, e que no fundo, não torcemos para que chegue, apesar de ser algo inevitável.
Nesse sentido, o filme dialoga diretamente com O Corpo (1982), conto de Stephen King que foi adaptado por Rob Reiner em Conta Comigo (1986). Se naquele caso a jornada infantil era marcada pela amizade diante da morte, aqui a caminhada forçada revela solidariedade em meio à crueldade. A união dos “Mosqueteiros” e principalmente a amizade entre Garraty e McVries, emergem como eixo emocional, ainda que, no contexto do jogo, todos estejam destinados a perder.
A comparação com Battle Royale (2000, Kinji Fukasaku), também se torna inevitável: jovens em meio à violência extrema, cada um com pouco tempo de tela, mas capazes de gerar empatia e dor em quem assiste. Lawrence repete esse feito em A Longa Marcha, garantindo que cada último momento, cada confissão, cada despedida, se torne memorável.

David Jonsson, Cooper Hoffman em cena de A Longa Marcha- Divulgação Lionsgate
A cinematografia reforça a atmosfera claustrofóbica: contra-plongées que engrandecem os personagens, ironicamente destinados à ruína; planos cada vez mais próximos à medida que o grupo diminui, trazendo intimidade com os sobreviventes; e um cenário árido, cortado apenas por moradores que assistem, ávidos, como espectadores de uma morte anunciada, os Banshees da América distópica, afinal a Longa Marcha, é um espetáculo criado para manter a América sob controle, violência como entretenimento e propaganda, um tema explorado demasiadamente em diversas mídias, porém, que ainda se mantém atual.
Ao fim, livro e filme se completam: um mais ligado ao contexto da Guerra do Vietnã e aos tumultuosos anos 60, o outro à crise e à fragmentação da sociedade do presente. Ambos discutem a banalização da violência, os mecanismos de regimes autoritários e a resiliência da juventude diante do inevitável. A Longa Marcha: Caminhe ou Morra é, portanto, mais do que uma adaptação: é um espelho do nosso tempo, e uma experiência que permanecerá com o espectador muito além da última cena.
Distribuído pela Paris Filmes, A Longa Marcha estreia nos cinemas brasileiros em 18 de setembro de 2025.
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