Dirigido por Germano de Oliveira, Bicho Monstro é uma fábula que aposta mais na jornada do que na conclusão.
Em sua extensão quase continental, o Brasil reúne tradições e sotaques raramente explorados no cinema. O eixo audiovisual do país continua centrado em São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto regiões como o Nordeste recebe uma atenção muito específica voltada geralmente para a comédia ou o drama do sertão, e o Norte, o Sul e o Centro-Oeste lutam por representatividade. Nesse contexto, produções como Manas (2025, Marianna Brennand Fortes) e Bicho Monstro surgem como bem-vindas exceções, revelando vozes regionais, ritos e culturas pouco exploradas.
Inspirado na lenda do Thiltapes, criatura mitológica inventada por imigrantes alemães, Bicho Monstro alterna duas linhas narrativas: a da jovem Ana, que busca a entidade após assistir a uma peça de teatro, e a de um botânico, duzentos anos antes, igualmente obcecado pela criatura como forma de ascensão social. Ambos, à maneira de Capitão Ahab em Moby Dick, mergulham em uma obsessão que beira o delírio, em confronto com uma natureza grandiosa, indomável e vigilante.

Kamilly Wagner em cena de ‘Bicho Monstro’ – crédito: Daniel de Bem
A fotografia e a direção de arte, premiadas no 53º Festival de Gramado, são os grandes trunfos da obra. Os planos grandiosos que incluem contra plongée, mudanças de foco, planos gerais e potentes de uma mata virgem e radical, a interação orgânica entre luz e sombra se destaca fortemente, aumentando o clima de tensão, além de uma cena inicial no teatro que é responsável por criar toda a atmosfera da produção, oscilando entre o fascínio e um realismo mágico, que é somado com uma atmosfera de terror em que a todo momento algo horrível pode acontecer, apesar de sempre ficar na iminência, sendo este uma das grandes questões do filme.
Narrativamente, Bicho Monstro mantém-se no limiar dos acontecimentos, evitando o confronto direto entre homem e criatura, ou até mesmo entre os próprios homens, como visto nas interações passivas entre o Botânico obcecado e seus capangas que desejavam sair da selva. O resultado é menos épico que em O Labirinto do Fauno (2006, Guillermo del Toro) e menos criativo do que em Onde Vivem os Monstros (2010, Spike Jonze), levando a um final que oferece a resposta crucial se o monstro existe ou não, porém, parece desnecessário diante da proposta de explorar mais os medos e desejos dos personagens do que a existência do Thiltapes em si, uma criatura cujo caráter infantil já a denuncia como invenção.

Cena de ‘Bicho Monstro’ – crédito: Daniel de Bem
A força do filme está em provocar reflexões mais do que oferecer soluções, porém, deixa de aprofundar o questionamento essencial: quem é, afinal, o verdadeiro monstro? Bicho Monstro poderia ter arriscado ainda mais no realismo fantástico, se aproveitando de uma estética que poderia ser somado a um tom narrativo mais onírico e de fábula, ou uma imersão ainda mais profunda dentro da loucura e obsessão de seus personagens, principalmente o passivo Botânico que poderia ter facilmente se inspirado na loucura de Klaus Kinski em Fitzcarraldo (1982, Werner Herzog), fazendo loucuras para achar esta criatura que não sabemos se realmente existe, e o vendo cair cada vez mais na loucura, sendo um caminho mais criativo e ousado do que aqiele tomado.
Apesar de leves tropeços em sua estrutura narrativa, a produção se fortalece pela sua ousadia estética e pelo lindo retrato da Encosta da Serra Gaúcha, marcando mais um acerto do cinema brasileiro em 2025.
Distribuído pela Boulevard Filmes e Vitrine Filmes, Bicho Monstro estreia em 25 de setembro.
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