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Carolina Dieckmmann em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Festival do Rio
Cinema e StreamingCrítica

Crítica Festival do Rio: ‘Pequenas Criaturas’ retrata solidão e afetos na Brasília dos anos 1980

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 16 de outubro de 2025
6 Min Leitura
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Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas revela a beleza do cotidiano e a força silenciosa das relações em reconstrução

Há um certo alívio em assistir a uma produção que não busca deslumbrar pela grandiosidade, mas pela simplicidade. Pequenas Criaturas, de Anne Pinheiro, é uma destas obras raras em que a delicadeza se torna um gesto de coragem, se afastando da pressa presente cinema contemporâneo e se sustentando no silêncio e na observação, permitindo que a vida exista por meio destes personagens, sendo preenchida entre as pausas e os espaços que existem na cidade de Brasília, em 1986.

Pequenas Criaturas conta a narrativa de uma família recém-chegada à capital: Helena, interpretada com melancolia e beleza por Carolina Dieckmann, é uma mãe que acaba de ser abandonada pelo marido. Ao seu lado estão André, o filho adolescente, e Dudu, o filho mais novo, fascinado por ficção científica, Planeta dos Macacos (1968, Franklin J. Schaffner) e por tudo o que envolve o cosmos. Apesar deste fascínio infantil parecer destoante do resto do filme, ele se revela uma chave para o filme, simbolizando a busca por vida em lugares aparentemente desabitados, como é caso da grande Capital Federal.

Carolina Dieckmmann em cena de 'Pequenas Criaturas'- Divulgação Festival do Rio

Carolina Dickemann em cena de “Pequenas Criaturas”- Divulgação Festival do Rio

Retratada neste período inicial de redemocratização, Brasília é o corpo onde essa história pulsa, uma cidade futurista, planejada, geométrica e, ainda assim, deserta. Pinheiro filma a capital como uma extensão emocional dos personagens: com os vazios arquitetônicos e as amplidões do concreto tornando-se espelhos da solidão de seus personagens que tentam se reconstruir, mesmo sem saber como, tornando este contraste extremamente poético.

Helena encontra conforto em Carlos, um parceiro que surge como um respiro, um vislumbre de afeto possível, porém, que jamais poderia se tornar algo mais, como se para Helena, o amor estivesse sempre condenado à distância. André, por sua vez, vive o rito de passagem de todo adolescente: o primeiro amor, com a crueldade dos semelhantes, com a percepção dolorosa de que a família está se fragmentando, porém, se cala, talvez para não preocupar a família. E por fim Dudu, o personagem que cria um universo próprio onde a solidão se dissolve em imaginação, e é dele que nasce o gesto mais surpreendente do filme em um plot-twist delicado e comovente que finaliza a produção com chave de ouro.

Pequenas Criaturas recusa a narrativa tradicional aonde existe um conflito iminente. Não há um antagonista, nem um clímax emoldurado pela urgência do drama, somente existe o cotidiano, o tempo que passa, as palavras que não são ditas. Em certos momentos, Pequenas Criaturas evoca o espírito contemplativo de Aftersun (2022, Charlotte Wells), especialmente em sua disposição de observar, e não de explicar, porém, aqui, o olhar é profundamente brasileiro: há o calor seco do cerrado, o tom quase sépia da fotografia, uma luz que insiste em revelar um “sol cinza e duro”, representando a aura de cimento e concreto de Brasília.

As sombras que percorrem os rostos dos personagens são quase físicas, e só se dissipam em raros instantes de liberdade, como na sequência de Helena e Carlos no parque de diversões, cena que ecoa o prazer esquecido da infância. O contraste constante entre peso e leveza, compõe a tessitura emocional do filme, cada plano parece desenhado para que o espectador sinta o mesmo vento seco que atravessa Brasília, o mesmo silêncio entre mãe e filhos, o mesmo desejo de recomeço que todos apresentam em seu interior.

Pôster Oficial de ‘Pequenas Criaturas’- Divulgação Globo Filmes

Entre primeiros amores, descobertas, silêncios e reencontros, Pequenas Criaturas constrói um retrato de afetos fragmentados que, aos poucos, encontram um modo de coexistir. Ao final, não é a cidade que muda, são eles que aprendem a habitar seus próprios vazios, sendo este presente que Anne Pinheiro nos oferece: a constatação de que viver é aceitar o que permanece inacabado, e mesmo em uma cidade que talvez nunca aprendamos a amar, é possível, aprender a viver.

Distribuído pelo Filmes Estação, Pequenas Criaturas foi vencedor do Troféu Redentor de Melhor Direção de Arte e de Melhor Longa de Ficção na Premiere Brasil do 27º Festival do Rio.

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Tags:brasiliaCarolina DieckmmannCinemacinema brasileirocinema nacionalFilmes do EstaçãoPequenas Criaturas
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.
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