O Despertar da Lenda | Crônica de um heroísmo

O Despertar da Lenda (Rise of the Legend) faz pensar sobre o heroísmo. Talvez mostre, daquele jeito artes marciais, que sempre haverá outra luta. A vida é feita dessas lutas. Para chegar onde se deseja é necessário ultrapassar obstáculos, vencer inimigos. E esses não são necessariamente vilões com cara de mal tentando te socar. Ok, às vezes podem até ser. Porém, em tantos momentos, o inimigo é você mesmo. Conhecer seus próprios defeitos, seu ego e tentar ser uma pessoa melhor a cada dia. Deixar de cair em armadilhas, perceber a maldade alheia, faz parte do aprendizado. Para vencer o mal, pode ser preciso conhecê-lo.

Somos seres feitos de luz e sombras. Segundo algumas linhas de estudos espiritualistas, esse é o planeta da dualidade. Na Bíblia, no livro do apocalipse, os cristãos escreveram que Deus diz: “Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”. É o caminho do mais ou menos. No filme, o herói, Fei, tem que fazer algumas maldades, mas seu coração continua puro. Parece piegas – e é. A missão dele é estar infiltrado entre os demônios para conseguir derrubar por dentro. Não é fácil. Traz dores inesquecíveis e feridas que parecem que nunca cicatrizarão. Mas ele não é morno. É quente no que acredita e por mais que tenha que trafegar pelo mal, não sucumbe e não se transforma em vilão.

Provavelmente sua missão não deve ser assim tão árdua – ou não. Porém, indubitavelmente, existe a missão de ser melhor a cada dia e de não ser mais ou menos, não viver numa temperatura morna, ser quente e vivo – ou frio e morto. Mas nada de mornice e de ficar em cima do muro.

Matrix

O Despertar da Lenda é filme para quem quer ver cenas de luta naquele estilo bullet time consagrado por Matrix (The Matrix). A princípio, já vemos uma bela sequência – um contra todos – e “bonitas” cenas de sangue cenográfico voando em câmera lenta com coreografias bem desenhadas. Logo depois, porém, enveredamos por um período complicado da história da China, no fim da dinastia Qing, um forte período de crise, quando muita coisa ruim estava acontecendo.

O vilão diz para o protagonista que não é fácil ser herói, pois sempre haverá outro sujeito mal a ser batido. Será então que a luta do herói é em vão? Fei, o herói de O Despertar da Lenda quer salvar trabalhadores sequestrados e se vingar. Vingança é um mote clássico em tantas histórias. Aliás, vai contra o ensinamento de diversos mestres, como Jesus. Outros já dirão que a vida é isso, olho por olho, dente por dente. O pacifista Gandhi tinha uma boa frase: “olho por olho, e o mundo acaba cego”.

Fei, o herói bonito

Eddie Peng vive o protagonista Fei e temos a participação do famoso Sammo Kam-Bo Hung como Mestre Lui. O diretor Chow Hin Yeung Roy realiza o filme com eficiência, não deixando o clima cair viajando entre a infância e o presente de Fei na primeira metade. O herói segue seu caminho para virar uma lenda. O roteiro é simples, mas funciona para abrir o espaço necessário para as lutas, mostrando os sacrifícios que ocorrem em prol do coletivo.

A questão é que Wong Fei-hung realmente existiu e tem até um museu na localidade de Foshan, na China, em sua homenagem. Ele é a base de diversas lendas e tem muitas séries e filmes baseados nele. O filme cria um personagem carismático, um guerreiro que não desiste e ultrapassa os obstáculos pelos seus objetivos benéficos. Pode entreter quem busca cenas de ação bem coreografadas, apesar da luta final não empolgar. Durante o filme tem outras muito melhores. Tem clichê, tem herói.

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