Dirigido por Kristen Stewart, A Cronologia da Água é denso e nostálgico retrato sobre traumas e superação
Ao longo do 27º Festival do Rio, o público pôde acompanhar diferentes atrizes assumindo a direção pela primeira vez. Entre elas, Glória Pires, com a comédia romântica Sexa (2025), Juliette Binoche, com o documentário In-I-Motion (2025), e Kristen Stewart, com A Cronologia da Água, talvez a mais radical dentro estas três. Baseado no livro homônimo de Lidia Yuknavitch, a produção não é leve, e tampouco busca ser, sendo um mergulho intenso nas águas turvas da memória, do trauma e da reconstrução pessoal, revelando uma cineasta que apesar de forçar demais sua mensagem, somente pela força do impacto, estreia já com uma voz autoral e muita coragem.
Logo de início, A Cronologia da Água evoca inevitáveis comparações com As Virgens Suicidas (2000, Sofia Coppola), outra primeira direção marcada por uma sensibilidade feminina em ebulição. No entanto, enquanto Coppola escolhe um olhar mais etéreo e visualmente agradável sobre o feminino, Stewart opta pelo choque e pelo visceral, fazendo uma produção que aborda distorção corporal, masturbação, aborto e abuso com uma franqueza rara no cinema norte-americano contemporâneo. Onde Coppola sussurra, Stewart grita, expondo seus próprios demônios ao dar forma à jornada de Lidia Yuknavitch, uma jovem que busca se reconciliar com as dores de sua história.

Imogen Poots em cena de “A Cronologia da Água”- Divulgação Festival do Rio
A narrativa acompanha Lidia, ex-nadadora olímpica, que foge para o Texas para escapar de uma família abusiva e tentar construir uma nova vida. No entanto, vícios e traumas persistem, levando-a à autodestruição e à solidão. A salvação surge quando descobre na escrita uma forma de se reconstruir, levando a um espaço de análise, catarse e renascimento.
Visualmente, Stewart demonstra um olhar surpreendentemente maduro. A escolha de filmar em película, aliada a uma proporção de tela que foge do clássico 2.39:1, cria uma sensação de proximidade quase tátil com a protagonista, na medida que sentimos dor e prazer juntamente com elas, auxiliado por uma atuação exemplar de Imogen Poots. A fotografia, de tons nostálgicos e texturas granuladas, reforça o caráter íntimo da narrativa: é como se o espectador pudesse sentir o peso da água, o toque da pele, o frio do azulejo da piscina, sendo esta fisicalidade um dos maiores trunfos do filme.
A estética de A Cronologia da Água é marcada por contrastes: cenas de erotismo coexistem com momentos escatológicos e violentos, todos sempre próximos à personagem, e sobrando pouco espaço para alívio. Os raros instantes de paz, como quando Lidia participa de um retiro de escrita guiado por um autor renomado, funcionam como breves respirações antes de o mergulho recomeçar, demonstrando a tensão existente no paralelo de dor e libertação, destruição e criação.
Se há algo que enfraquece a produção como um todo, é a insistência de Stewart em sublinhar a sua mensagem a todo momento. A diretora, ansiosa por deixar claro seu discurso sobre corpo, trauma e feminino, por vezes força o impacto com circunstâncias repetitivas ou narrações auto explicativas, afinal, a produção não busca agradar, mas provocar, se resumindo em uma obra imperfeita, intensa e confessional, como um diário aberto, ou um vídeo caseiro, produzido com dor e beleza, assim, se a mensagem é forçada, é apenas porque sua autora ainda está aprendendo a dosar o grito, e para uma primeira direção, é um mergulho admirável.

Cena de “A Cronologia da Água”- Divulgação Oficial
Distribuído pela Filmes do Estação, A Cronologia da Água terá no dia 09 de Janeiro de 2026 uma sessão especial no Estação Net Rio, RJ, e em seguida uma sessão no dia 16 de Janeiro de 2026, que será realizada no Cinema Belas Artes, em SP. Em seguida, a produção entrará em circuito comercial a partir do dia 05 de Fevereiro de 2026.
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