Dirigido por Shinobu Yaguchi, DollHouse constrói história interessante e agonizante que se estende um pouco além do necessário, mas culmina em um final abrupto e marcante.
O conceito da boneca já é, por si só, algo assustador, um mini-humano que nos observa enquanto dormimos, servindo como símbolo de inocência e de uma infância perdida, parecendo real, ao mesmo tempo que apresentamos plena consciência que não é, e justamente dentro deste limbo, o chamado “Vale da Estranheza”, que o medo se instala. Essa ideia já foi explorada em inúmeros filmes de horror, de Chucky à Annabelle, e mais recentemente em M3GAN (2023, Gerard Johnstone), produções que brincam com a tensão entre o afeto de algo que deveria ser seguro e confortável e a ameaça constante que apresenta.
Em geral, essas narrativas partem de um processo de luto: a carência é suprida por um brinquedo, até o momento em que ele é abandonado e busca vingança por ter sido deixado de lado. Em DollHouse Yaguchi usa isso com maestria, sem fugir dos clichês do gênero, mas os utilizando a seu favor, adaptando a lenda da boneca Okiku com consciência de que o espectador já carrega um medo prévio, um medo que ativado pelos menores sinais de tensão. Assim, o filme se apoia fortemente no não visto, no som fora de campo e em clara inspiração no J-Horror.

Cena de DollHouse- Divulgação Sato Company
O movimento iniciado com Ring (1998, Hideo Nakata) influenciou diretamente DollHouse: a tensão constante, o desconforto do sobrenatural e o foco no estranhamento, que substitui os jump-scares ocidentais que não apresentam mais tanto efeito, focando em uma composição de universo em que o próprio tempo é afetado pelas decisões de seus personagens.
A trama acompanha Yoshie e Tadahiko, um casal devastado pela morte da filha, Mei, ao encontrar uma boneca que se assemelha à menina, Yoshie passa a tratá-la como filha, até o nascimento de Mai, sua nova bebê, assim, a boneca é negligenciada, e inicia um processo de vingança e busca por afeto.
O filme aposta em uma mise-en-scène clássica do horror, com trilha sonora baseada em cordas e coral, intensificando a tensão, fazendo com que o público, já condicionado por outros filmes de bonecas, reaja com desconforto a cada gesto de descuido ou desprezo pela boneca, mesmo antes que qualquer evento sobrenatural ocorra.
O uso de dublês para Mai e Aya, a boneca, é uma escolha curiosa, e embora não confunda o espectador tanto quanto poderia, contribui para a estranheza geral. À medida que a narrativa avança, Aya se torna cada vez menos humana e mais monstruosa, remetendo fortemente à Sadako, ou Samara na versão Americana, tanto pela aparência quanto pela aura.
Mesmo em momentos mais cômicos, como o dos “Power Rangers caçadores de mitos”, DollHouse equilibra humor, tragédia e terror com habilidade, ainda que o terceiro ato se estenda demais e apresente múltiplos finais, antes de de seu desfecho realmente impactante.

Cena de DollHouse- Divulgação Sato Company
Embora Yoshie e a filha sejam o foco principal, o segundo ato dedica-se à relação de Tadahiko com Mai. Sua descrença e tentativas de racionalizar os eventos servem como alívio cômico, mas perdem força diante da intensidade de Yoshie, e apenas com a entrada do exorcista no terceiro ato que a produção recupera o fôlego.
Mesmo um pouco alongado, DollHouse surpreende por ser mais eficiente que produções semelhantes, como Annabelle (2014, John R. Leonetti), tanto em termos de sustos quanto de atmosfera. Yaguchi entrega um horror que combina sobrenatural, inocência infantil, e a mensagem de aceitar o passado, por meio de uma tensão constante, levando a um filme que faz o espectador rir, se angustiar e se arrepiar na mesma medida.
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