Dirigido por José Eduardo Belmonte, Quase Deserto se apropria de Detroit pós-pandêmica para construir uma narrativa sobre bondade, fraternidade e resistência emocional.
Exibido durante o 27º Festival do Rio, Quase Deserto foi acompanhado um debate realizado no Cine Odeon, no dia 9 de outubro de 2025, em que Belmonte descreveu a obra como uma sátira “que abraça o deboche com gosto”, subvertendo ícones do cinema norte-americano em busca de uma sensibilidade própria.
Dentro dessa Detroit futurista, a produção brinca com arquétipos clássicos, como a “garota de bom coração”, frequentemente retratada como ingênua, apenas para desmontá-los e revelar camadas de complexidade inesperadas, levando a um filme que mesmo sem intenção declarada de ser alegórica, se torna um retrato atual e urgente de um mundo à beira do colapso, mas ainda capaz de gestos de ternura.
Apesar do tom melancólico e da reflexão sobre imigração, isolamento e esgotamento social, Belmonte evita o desespero. A estética do filme reforça esse paradoxo: a coloração pastel e a fotografia claustrofóbica, com planos fechados que aprisionam os personagens, sugerem um mundo sem saída, enquanto a direção de arte minimalista, concede uma paleta de cores distinta a cada protagonista, contrastando com o cenário cinzento que os envolve. Mesmo com esta contenção visual que representa um planeta exausto, a obra encontra brechas de esperança.

Angela Sarafyan,Vinícius de Oliveira e Daniel Hendler em cena de “Quase Deserto”- Divulgação Festival do Rio
Quase Deserto é dividido em três capítulos: “O Argentino”, “O Brasileiro” e “A Garota Boba, ou não”. No primeiro, acompanhamos Benjamin, um jornalista argentino, investiga o colapso do mercado imobiliário. Em seguida Luís, um homem que enfrenta a rigidez do processo migratório enquanto cultiva açaí em solo estrangeiro. Por fim, Ava, uma jovem com uma síndrome que a faz enxergar o mundo com a inocência de uma criança, personagem que se torna o elo afetivo e espiritual do filme. É através de Ava que Belmonte canaliza seu otimismo fundamental: a crença de que, mesmo diante do caos, a empatia ainda é possível, não a toa foi a escolha deste nome.
Os três personagens se movem como foragidos em uma realidade estranhamente familiar. O universo que os cerca mistura o bizarro e o banal em uma atmosfera que lembra tanto Kafka quanto o realismo mágico latino-americano. A comunicação fragmentada, que alterna entre português, espanhol e inglês, reforça a sensação de desencaixe, mas também aproxima o público dessa colcha de retalhos humana que é tão mais envolvente em suas subtramas individuais do que a jornada coletiva, afinal, quando se unem, os personagens perdem um pouco da força e Quase Deserto sofre uma “barriga” narrativa.
Ainda assim, Belmonte utiliza essa fragilidade como parte do discurso: o encontro entre os diferentes é sempre caótico, imperfeito e, por isso mesmo, profundamente humano. O diretor subverte símbolos tradicionais do cinema americano, mafiosos, pais intolerantes, vilões mal compreendidos, para revelar que, no fundo, todos são parte da mesma engrenagem de sobrevivência.

Angela Sarafyan em cena de “Quase Deserto”- Divulgação Festival do Rio
O final otimista, que poderia soar ingênuo, ganha força justamente por nascer do olhar de Ava. A sequência final, em que diversos personagens dançam juntos durante os créditos, é menos uma catarse e mais um convite: escolher a gentileza como forma de resistência. Como disse Belmonte no debate pós-sessão: “Como dizia o Frei Betto: ‘Deixe o pessimismo para os dias melhores’.”
Em tempos em que o real parece cada vez mais distópico, Quase Deserto reafirma o papel da ficção: nos permitir olhar o mundo por outro ângulo, e, mesmo que por alguns minutos, acreditar que, quando nos ajudamos e dançamos juntos, ainda podemos existir em harmonia, enxergando o mundo com o mesmo viés otimista que Ava, e nos divertindo com isso.
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