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Cena de "Yes"- Divulgação Festival do Rio
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Yes’ é pesadelo pop que aparenta não ter fim

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 21 de outubro de 2025
6 Min Leitura
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Cena de "Yes"- Divulgação Festival do Rio
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Dirigido por Navad Lapid, Yes é retrato de Israel que transita entre a realidade, o absurdo, a sátira e o horror

Entre todos os filmes que planejei assistir no 27º Festival do Rio, não esperava me deparar com um épico de duas horas e meia sobre um casal de animadores de festas, em uma Israel claustrofóbica e dominada pelo exército, com humor ácido e um desconforto constante que evoca Dr. Fantástico (1964, Stanley Kubrick), por conta de sua sátira sardônica às pessoas no poder, e às “pessoas de bem” que nada fazem. Um filme do qual se deseja escapar, mas cuja densidade visual e moral impede qualquer fuga, e entre tantos choques, o que para mim ficou mais memorável, que é ouvir Ragatanga (2002, Rouge) em hebraico, uma ironia pop em meio ao caos ocasionada pela obra que é Yes.

A produção de Lapid é uma festa radical recheada de música, sexo, drogas, álcool e violência, em uma celebração que ecoa muito depois de acabar, quando só restam a escuridão, as sobras e as memórias de uma noite que o melhor seria esquecer, mas que inevitavelmente continuará nos assombrando por muito tempo.

Cena de "Yes"- Divulgação Festival do Rio

Cena de “Yes”- Divulgação Festival do Rio

Yes acompanha Y. e Yasmin, um pianista e uma dançarina que ganham a vida animando festas da elite israelense. Para sobreviver, dizem “sim” para todas as situações, mesmo quando discordam das visões políticas dos contratantes. Tudo muda quando Y. é encarregado de compor o novo hino nacional, cuja letra anuncia a devastação de Gaza, uma tarefa que o coloca diante de escrúpulos que ele nem sabia possuir, obrigando-o a encarar a realidade que sempre preferiu ignorar.

O filme se divide em dois núcleos. Na primeira hora, acompanhamos o casal de festa em festa, mergulhado em uma rotina de excessos, sorrisos forçados e movimentos frenéticos, e mesmo nesta alegria ininterrupta, sentimos algo errado. O ar é pesado, os militares estão por perto os sondando, e, sobretudo, Y. e Yasmin não pertencem a esse mundo: são empregados, bobos da corte modernos, que fingem felicidade para agradar aos poderosos e levar algum dinheiro para casa, onde os espera um bebê recém-nascido, e o futuro daquele país que está com os dias contados.

Quando surge a proposta de compor o hino, um grito contido começa a escapar. Lapid transforma essa jornada em um mergulho brutal na consciência e na culpa: um retrato de uma sociedade que se acostumou à crueldade e à alienação. Nosso covarde herói abandona a esposa e o filho e parte em uma viagem de autodescoberta, onde só encontra prazeres efêmeros e horrores inescapáveis, descobrindo que, uma vez vista a verdade, é impossível desver.

Yes não é um filme fácil. A todo momento o espectador quer fugir, mudar de canal, pausar o filme, respirar, olhar para outro lado, mas é impedido pela mão forte de Lapid. Se existem pessoas que vivem aquele pesadelo diariamente, o mínimo que cabe ao público é suportar uma fração de sua angústia durante duas horas e meia. Mesmo a contagiante Ragatanga em hebraico é apenas uma distração colorida diante do vazio e da desesperança.

Cena de "Yes"- Divulgação Festival do Rio

Cena de “Yes”- Divulgação Festival do Rio

Enquanto Kubrick encerrava Dr. Fantástico com um riso vazio, Yes não oferece sequer essa válvula de escape. O que era cômico na primeira parte torna-se agonia e sofrimento no restante do filme, não tendo como manter a neutralidade diante dos horrores, e o diretor sabe disso, insistindo em longas sequências escatológicas que se prolongam além do conforto do espectador, até que não reste dúvida sobre sua visão de mundo, e sobre a noção de realidade, explorando uma ironia até o limite, deixando bem didática para que todos entendam.

Ariel Bronz e Efrat Dor entregam-se por completo aos papéis, principalmente Bronz, em seu primeiro longa. Em um filme tão físico e incômodo, seria impossível atuar pela metade, e por meio deles percebemos a alegria se esvair de seus olhos que se apagam lentamente, até restar apenas o vazio. Mesmo nos momentos mais luminosos, há sempre algo errado, e mesmo quando seus personagens ignoram os avisos gritantes do número de mortes, a realidade sempre bate, como se o próprio filme nos dissesse que não existe esperança para estes horrorres.

Distribuído pela Imovision, Yes lotou as sessões do 27º Festival do Rio.

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