Dirigido por Sacha Amaral, O Prazer é Meu aposta em uma narrativa quase experimental para retratar o ciclo sisífico dos relacionamentos contemporâneos
Por volta dos quarenta minutos, O Prazer é Meu mergulha em um processo de repetição exaustiva que já estava presente desde o começo da produção. Antônio já não sabe como agir diante da vida: encontra satisfação apenas em alívios momentâneos: drogas, sexo casual, pequenos furtos, se afastando de todos em sua busca por um sentido que não existe. Amaral traduz, com delicadeza e desconforto, a angústia do jovem contemporâneo: alguém criado em meio a infinitos estímulos, mas incapaz de lidar com qualquer um deles.
A coprodução entre Brasil, Argentina e França se aproxima mais do cinema experimental do que do clássico. A fotografia em tons pastéis e o uso constante da câmera próxima reforçam a sensação de apatia e isolamento, algo constante durante toda a produção de O Prazer é Meu, sendo algo propositalmente entorpecido, uma estética que comunica sem floreios, o vazio interno e externo deste protagonista sem rumo.

Sofia Palomino e Max Suen em cena de ‘O Prazer é meu”- Divulgação Oficial
A proposta é interessante e provoca reflexão. No entanto, ao insistir demais na monotonia e na depressão de Antônio, de encontro casual em encontro casual, em brigas com a mãe, o padrasto e quem mais cruzar seu caminho, o filme afasta o espectador. Onde narrativa poderia ser mais ousada e até mesmo abraçar o erotismo, se torna circular, e o interesse pela jornada de Antônio se dissolve na própria estagnação.
Diferente de Jeanne Dielman (1975, Chantal Akerman), em que cada gesto repetido revela progressão e dor, Sacha Amaral mantém o espectador preso a um ciclo sem movimento. A repetição em O Prazer é Meu não gera reflexão, mas cansaço, resultando em um experimento de personagem que, embora visualmente consistente, carece de densidade dramática, ou um personagem interessante, para sustentar sua duração.

Max Suen em cena de ‘O Prazer é meu”- Divulgação Oficial
Antônio representa o jovem adulto da atualidade: teme o vazio, a incerteza, o fracasso e principalmente o futuro. Apresentando uma relação conflituosa, e ao mesmo tempo próxima, com a mãe, cresceu debaixo daquele ninho e recebeu um choque de realidade bem cruel. Ao final, resta-lhe apenas sobreviver, usando inteligência e malandragem. Contudo, apesar de apresentar todas as peças para, Amaral não constrói um protagonista empático, Antônio não conquista o público nem desperta compaixão. Sua busca por sentido é, no fundo, o delírio de grande parte dos jovens da atualidade, presos em um busca por sentido no vazio, porém, apesar das boas intenções, o seu retrato não acrescenta nada de novo para a discussão.
Os vazios em preto, ilustrando os áudios que Antônio escuta no celular, são o artifício técnico mais intrigante da obra, e algo que poderia ter sido melhor explorado, porém, o recurso se repete sem aprofundamento, novamente caindo no marasmo e levando até o inevitável fim: sem arco, sem mudança, com um personagem que termina tão vazio quanto começou, em um senso blazé que não entrega satisfação, nem mesmo a trilha sonora contida consegue se sobressair e se destacar dentro de uma fotografia melancólica, que apenas reforça a imobilidade emocional de um jovem perdido entre o prazer e o nada.
Produzido pela Quadrophenia Films, e distribuído pela Europa Filmes em parceria com a Vinny Filmes, O prazer é meu estreia no dia 30 de outubro.
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