Dirigido por Anna Cazenave Cambet, Me Ame com Ternura explora autodescoberta e maternidade queer, mas se perde em excessos e lento ritmo
Algumas produções pecam pelo excesso, seja pela duração alongada, pela ênfase desmedida em um estilo, ou pela insistência em uma mensagem que se repete. Me Ame com Ternura, vencedor do Prêmio Félix, Prêmio Especial do Júri, no 27º Festival do Rio, se encaixa nesta categoria, sendo seu principal problema o desequilíbrio entre ritmo e discurso: um andamento que poderia ser melhor dosado e uma mensagem que, se tratada com mais sutileza, ampliaria o alcance emocional e temático da jornada de Clémence, sua protagonista.
Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Constance Debré, o filme acompanha Clémence, uma escritora que, após revelar sua homossexualidade ao ex-marido, inicia uma batalha judicial pelo direito de ver o filho. Nesse processo, enfrenta não apenas a hostilidade do sistema, mas também as próprias incertezas, refletindo sobre amor, maternidade e liberdade.

Vicky Krieps e Viggo Ferreira-Redier em cena de “Me Ame com Ternura”- Divulgação Imovision
Cinematograficamente, Me Ame com Ternura é um filme de beleza poética. A narração em off, construída a partir das reflexões de Clémence, reforça o caráter literário da narrativa e a ligação entre a protagonista e a escrita. No entanto, este recurso, usado em excesso, acaba se tornando redundante em mais de um ponto. Toda a história é filtrada pelo olhar de Clémence, interpretada com sensibilidade por Vicky Krieps, por consequência, mesmo que algumas de suas atitudes sejam questionáveis, o filme opta por um retrato sempre afetuoso, transformando-a em símbolo de resistência e libertação feminina diante de uma sociedade preconceituosa.
Curiosamente, a adaptação altera o nome da autora para Clémence, mas mantém os do ex marido, Laurent, e do filho, Paul, o que acentua a impressão autobiográfica e confessional. Laurent, por exemplo, é retratado sob uma luz sombria, quase caricatural, e, como o público não tem acesso a outra perspectiva além daquela da protagonista, somente nos resta aceitar a visão unilateral, reforçando a força da personagem, mas empobrecendo a complexidade da narrativa, que poderia explorar melhor as nuances desse conflito.
Mas afinal, quem é Clémence? O filme a apresenta como mãe, escritora, ex-advogada, nadadora, e acima de tudo, uma mulher queer orgulhosa de sua identidade. Krieps dá vida a uma personagem em constante movimento, tentando equilibrar o papel de mãe com o desejo de viver plenamente, sem virar o olhar do retrato livre e sensual que ela vive em sua nova vida, e não importa se faça atitudes questionáveis, sua luz sempre será favorável.
É justamente neste ponto que o filme se perde, tentando contemplar todas as camadas da protagonista, Me Ame com Ternura se fragmenta. Há cenas belíssimas, como o primeiro reencontro entre Clémence e Paul, e os longos planos estáticos ressaltam a melancolia e a solidão da personagem. Contudo, muitas sequências parecem existir apenas para reforçar estados de espírito, sem função narrativa clara, tendo Interações secundárias, como a com o colega de apartamento, ou o colega gay, surgem e desaparecem sem deixar impacto, levando a uma história que se arrasta, oscilando entre momentos de intensa delicadeza, com trechos vazios e contemplativos.

Vicky Krieps e Monica Chokri em cena de “Me Ame com Ternura”- Divulgação Imovision
Com 2h14 de duração, o filme poderia ser um poderoso drama de 1h40. Há uma clara intenção de construir uma obra visualmente estonteante, mas o resultado é um retrato por vezes hermético e pouco fluido. Ainda que traga mensagens importantes sobre a visibilidade queer e as dificuldades enfrentadas por mulheres que desafiam as normas sociais e o papel do que é ser uma mãe, a narrativa se torna refém de seu próprio discurso, priorizando o manifesto em detrimento da emoção.
Me Ame com Ternura é distribuído pela Imovision e foi escolhido como filme de abertura do 35º Festival MixBrasil.
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