Pássaro do Oriente (Netflix) – Crítica

Pássaro do Oriente é um constante embate cultural. Em um Japão dos anos 80, a americana Lucy Fly ganha a vida como tradutora, após fugir de um passado traumático em sua terra natal. Quado se torna suspeita pelo assassinato de Lily, flashbacks surgem durante um interrogatório da polícia. Assim, descobrimos que Lucy namorava o introspectivo fotógrafo Teiji e vivia um relacionamento calmo, até que Lily, outra americana, foi apresentada ao casal e, como um furacão, mudou o mundo dos dois. De alguma forma, os acontecimentos do filme levarão ao sumiço desta.

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Por mais que pareça um suspense clássico, o mistério do desaparecimento é apenas um mero detalhe no longa. É uma obra que está muito mais preocupada em apresentar essa áurea mística em torno de Fly, que acredita ser um imã para a morte desde sua infância. Por isso, a estética do filme reflete esse fatalismo sombrio em todo seu design, mostrando um lado do Japão dos anos 80 degradado e sombrio.

Há esse flerte muito grande entre a sensualidade e o perigo que, de certa forma, se atraem. Quando Teiji diz para Lucy que uma pessoa fotografada sempre deixa um pouco de sua alma para o fotógrafo, ela parece achar interessante a ideia. E não há muita explicação para eles estarem juntos, além desta curiosidade da protagonista pelo desconhecido e o exótico.

Um lugar sensual e exótico

Afinal, é essa a ideia que Lucy parece ter do Japão. Um lugar sensual e exótico onde pode fugir de seu seus problemas. É como se a figura de Teiji personificasse isso tudo, com uma atuação bem silenciosa de Naoki Kobayashi, que absorve brilhantemente o escapismo que Lucy procura. A própria maneira que Wash Westmoreland filma o japonês é com esse olhar de curiosidade.

Com sua blusa cinza fechada até a gola, é como se ela tentasse se camuflar naquele ambiente. Não só isso, mas tudo que faz é uma tentativa de assimilar aquela cultura, em uma tentativa de abandonar seu antigo eu. E é assim surge Lily que, se contrapondo ao exotismo de Teiji, fazendo Lucy relembrar de tudo que abomina. Em um primeiro momento, parece até desproporcional a cena em que a protagonista reage de maneira grosseira quando Lily não sabe pedir um café sozinha por não falar a lingua nativa, mas Lily é um enorme gatilho para que ela relembre da pessoa que era antes. Acaba que ela é essa a personificação de um mundo ocidental muito mais inocente, perdido e agitado, o que a atriz Riley Keough também incorpora perfeitamente.

A partir daí, há um jogo de opostos funcionando em prol do conflito identitário de Lucy Fly, que se vê nesse cabo de guerra entre presente e passado, Ocidente e Oriente. Aliás, dualidade que está presente desde os créditos iniciais, quando o nome dos atores aparecem tanto em inglês quanto em japonês.

Assimilação Magnética

O que inicialmente parece um conflito acaba se tornando uma assimilação magnética entre os dois polos. Lucy fica tão perdida tentando entender quem ela é, que acaba sendo deixada para trás por Teiji e Lily, que ficam fascinados um pelos outro. Em um dos melhores momentos de Pássaro do Oriente, quando há a dança entre os dois, aquela linda sequência é muito mais do que um movimento rítmico. Torna-se a harmonização daquelas personalidades, que são duas faces de uma mesma moeda — Lucy.

E seguindo este mito de que a fotografia absorve a alma, Lucy fica perdida nesse limbo entre as duas identidades, não sobrando mais sua própria personalidade. A partir daí Pássaro do Oriente, assim como a protagonista, acaba se perdendo um pouco. Existe esta falsa de sofisticação e uma falta de objetividade na história, que, pretensiosamente, fazem o filme parecer mais do que é, quando, na verdade, é bem simples.

No fim, a falta de uma resposta exata pode soar anti-clímax, mas o que importa é que Lucy conseguiu resolver seu próprio conflito identitário, se livrando desse jogo de estereótipos que a prendiam e se libertando, como um pássaro, livre no oriente.

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