Dirigido por Leandro Wenceslau, Lar propõe uma reflexão sensível e necessária sobre o conceito de amor e família, com foco em três famílias LGBT+.
Em uma sociedade complexa e em constante transformação, limitar o conceito de “família” a um único modelo é inadmissível, ainda que setores conservadores insistam em fazê-lo. E justamente nesta discussão que, mesmo com falhas no ritmo e um retrato por vezes superficial, produções como Lar ganham relevância, se tornando um importante estudo sobre personagens e dinâmicas familiares diversas.
O próprio desejo de constituir uma família é o ponto de partida de Leandro Wenceslau. Em suas palavras:
“O desejo de formar uma família estava presente na vida adulta e, junto com meu companheiro, pensava em ter filhos, mas não sabia como. Em 2015, conversei com um casal de professoras que adotaram dois irmãos. Elas mostraram de forma muito direta e sincera que o amor não tem fórmula estabelecida. Entendi que a família se construía com cuidado e presença, muito além dos formatos convencionais.”

Cena de Lar- Divulgação Embaúba Filmes
O documentário acompanha três diferentes núcleos LGBT+ e seus filhos adotivos, destacando o olhar das crianças por meio de brincadeiras, conversas leves e interações espontâneas. A câmera observa com discrição, evocando o cinema direto e o registro sem interferências, tornando o espectador um mero observador passivo para estas pessoas. Mais do que um retrato de amor, Lar funciona também como um espelho das dificuldades que essas famílias enfrentam, especialmente diante do preconceito social e institucional, como no desabafo sobre a experiência escolar do filho de um casal gay.
Com 1h16 de duração, o filme alterna entre as três famílias, revelando momentos de ternura e descontração. Ainda assim, o resultado final deixa uma sensação de incompletude. O ritmo é irregular, e a ausência de entrevistas ou condução narrativa mais clara torna o conjunto fragmentado, assim, embora apresente cenas belas e sinceras, elas podem ser consideradas isoladas, sem progressão dramática que sustente o todo. Nesse sentido, uma interferência maior da equipe de filmagem, por meio de conversas ou depoimentos, poderia ter enriquecido o material e dado maior densidade à proposta.
A mensagem de que o amor é transformador permeia toda a obra, expressa em gestos simples: pais e filhos brincando na piscina, partidas de videogame, ou diálogos descontraídos sobre namoro online, porém, essa ênfase constante no afeto acaba ofuscando os conflitos, que são tratados de forma rasa e breve.
O início de Lar é particularmente promissor. Wenceslau utiliza imagens de arquivo para evocar sua relação com o pai, criando um paralelo potente entre laços de sangue e laços de afeto. Esse gesto inicial sugere um caminho reflexivo que, infelizmente, o filme abandona rapidamente. Ao invés de costurar as histórias das famílias a partir desse ponto de vista pessoal, o documentário se transforma em um mosaico de boas intenções, sendo um quebra-cabeça com peças interessantes, mas que não chegam a formar uma imagem coesa, com trajetórias e jornadas que carecem de um elo narrativo coeso.

Cena de Lar- Divulgação Embaúba Filmes
Ao final, Lar se afirma como um retrato bonito e agridoce dessas famílias que merecem visibilidade e reconhecimento. Sua sensibilidade e honestidade o tornam relevante no panorama do documentário brasileiro contemporâneo, especialmente por abordar a parentalidade LGBT+ com delicadeza e respeito, porém, sua execução morna e pouco articulada impede que alcance todo o potencial que carrega, emocionando mais pelo que representa do que pela forma como o faz, sendo um passo importante, porém ainda pequeno, na construção de um cinema documental mais plural e afetivo.
Distribuído pela Embaúba Filmes, Lar estreia nos cinemas no dia 13 de Novembro.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



