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Luiza Mariani e Karine Teles em cena de "Cyclone"- Divulgação Bretz Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Cyclone’ traz contida tormenta feminina

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 15 de novembro de 2025
5 Min Leitura
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Luiza Mariani e Karine Teles em cena de "Cyclone"- Divulgação Bretz Filmes
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Dirigido por Flavia Castro, Cyclone apresenta toda a premissa para uma excelente história, mas ao final, se contém dentro do próprio tema

Fazer a pré-estreia de Cyclone no Theatro Municipal de São Paulo trouxe uma camada metalinguística para a produção de Flavia Castro que, ao mesmo tempo, enaltece o filme, afinal, grande parte da narrativa foi gravada no local, ao mesmo tempo que expõe suas falhas dentro de uma obra que tenta a todo momento provar seu potencial como produto audiovisual independente, transgressor e histórico. No papel, a proposta parece ideal: revisitar a história de uma mulher esquecida e transformá-la em símbolo da luta feminista, porém, na prática Cyclone é um filme de boa premissa cuja execução conturbada não alcança o potencial prometido.

Estrelado por Luiza Mariani, o longa se passa em 1919 e se inspira nos poucos registros sobre Maria de Lourdes Castro Pontes, conhecida como Miss Cyclone, uma mulher à frente de seu tempo e a única a participar de O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, organizado por Oswald de Andrade. A produção adapta essa trajetória de forma contemporânea, feminina e declaradamente feminista, discutindo o silenciamento das mulheres, o aborto, os desejos e as contradições do feminino em uma época anterior à efervescência modernista de 1922.

Luiza Mariani em cena de "Cyclone"- Divulgação Bretz Filmes

Luiza Mariani em cena de “Cyclone”- Divulgação Bretz Filmes

Visualmente, Cyclone é uma obra de enorme valor estético. O figurino e a direção de arte transportam o espectador a um tempo suspenso, enquanto o design de som claustrofóbico e a fotografia, com suas luzes artificiais e colorações teatrais, dialogam diretamente com o espaço cênico a que a protagonista pertence e ama tanto, transformando o local em uma prisão simbólica: o mesmo espaço da criação é o da clausura. As gambiarras teatrais e a ambientação restrita potencializam a angústia de uma protagonista que sonha com Paris, mas é aprisionada por uma gravidez não planejada e por suas próprias escolhas.

Há uma contradição interessante no projeto. Flavia Castro, que em Diário de uma Busca (2010) e Deslembro (2018) explorou memórias íntimas e coletivas da ditadura, mas aqui parece buscar uma genealogia do feminino no Brasil: de uma artista silenciada do início do século XX à mulher contemporânea que ainda enfrenta julgamentos e invisibilidade. No entanto, diferentemente de Deslembro, Cyclone não encontra equilíbrio entre discurso e personagem, com a resistência feminina surgindo mais como tese do que como experiência vivida.

A atuação de Luiza Mariani, que interpretou a personagem no teatro, carrega essa dualidade: embora imersa no papel, sua performance carece de nuances emocionais que humanizem a personagem, apresentando uma “mesma expressão robótica”, que a distancia do público, tornando ainda mais evidente diante de um elenco composto por nomes como Karine Teles e Eduardo Moscovis, que orbitam uma narrativa em que o conflito interno da protagonista nunca se concretiza plenamente.

No panorama do cinema brasileiro recente, Cyclone se insere em uma tradição de filmes que revisitam figuras femininas esquecidas ou questionam os papéis impostos às mulheres, porém, fazendo o caminho contrário daquele esperado, e desejado: se utilizando da tese feminista para tentar justificar a personagem, quando deveria ser o inverso, mais afirmando o filme do que realmente o mostrando.

Luiza Mariani e Eduardo Moscovis em cena de "Cyclone"- Divulgação Bretz Filmes

Luiza Mariani e Eduardo Moscovis em cena de “Cyclone”- Divulgação Bretz Filmes

O resultado é um feminismo de superfície: visualmente potente, discursivamente consciente, mas emocionalmente distante. Em vez de envolver o espectador em uma jornada íntima, a obra se fecha em um ritmo lento e em espaços confinados que não traduzem a grandiosidade da figura histórica que inspira a narrativa.

Ao final, talvez Cyclone funcione melhor como teatro do que como cinema. No palco, o minimalismo e o texto ensaístico poderiam ganhar força simbólica, enquanto na tela grande, o confinamento se transforma em estagnação, e as cenas que poderiam ser gritos, soam mais como ecos dentro das paredes do teatro que o originou.

Com distribuição da Bretz Films, Cyclone estreia comercialmente nos cinemas no dia 4 de dezembro.

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Tags:Cinemacinema brasileirocinema nacionalcríticaCrítica CycloneCycloneEduardo MoscovisFlavia CastroLuiza Mariani
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