Dirigido por Rafaela Camelo, A Natureza das Coisas Invisíveis nos prende por seu retrato sensível da morte e do legado, sem abrir mão da leveza inerente ao olhar infantil
Retratar o luto nunca é simples. É uma dor difícil de compreender, ainda mais de expressar ou compartilhar, e no cinema, esse processo se torna mais complexo quando visto pela perspectiva de crianças, como ocorre no caso de A Natureza das Coisas Invisíveis.
A produção acompanha Glória, uma menina de 10 anos que passa as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá, ela conhece Sofia, que acredita que a piora da saúde da bisavó está diretamente ligada à internação. Nesta amizade, ambas encontram conforto mútuo. Quando a despedida se torna inevitável, fazem uma viagem com suas mães para o interior de Goiás, onde precisam lidar com a tristeza da perda e, ao mesmo tempo, com a delicada possibilidade de virar a página.

Camila Mardila e Larissa Mauro em cena de “A Natureza das Coisas Invisíveis”- Divulgação Vitrine Filmes
Sem medo de tocar em feridas abertas, Rafaela Camelo constrói um coming of age que se apoia em duas forças centrais: o mistério do luto e o realismo fantástico que permeia a narrativa, sendo este último, um dos aspectos mais instigantes do filme, porém, que poderia ter sido explorado com maior profundidade, já que combina simbolismos sobre legado, ancestralidade e laços familiares de maneira muito promissora.
A discussão sobre o luto é sintetizada com elegância em uma cena simples: Glória questiona a mãe sobre a morte de seu Oswaldo, um paciente idoso. A mãe tenta afastá-la do tema, sugerindo que ela deveria brincar e aproveitar o verão. É um conselho compreensível, mas carregado de contradição, afinal, como se afastar da morte quando se passa o dia dentro de um hospital, cercada diariamente por ela? O filme não demora a explicitar essa reflexão, quando a própria Glória desmonta a tentativa de proteção materna ao constatar que não há como ignorar aquilo que está diante de seus olhos.
A Natureza das Coisas Invisíveis não foge dessas conversas difíceis, porém, abre espaços para momentos de leveza, despedidas brandas e pequenas epifanias que suavizam situações que poderiam se tornar extremamente pesadas. Por serem filtradas pelo olhar de crianças, as vivências ganham uma camada de magia mesmo nos instantes de maior dor, muito graças ao realismo mágico de Glória.
A menina, que teve que fazer um transplante de coração quando pequena, apresenta a capacidade de enxergar fantasmas. A obra nunca explica esse poder abertamente, mas o utiliza como metáfora para transições, passagens e despedidas: Glória literalmente “abre a porta” para a bisavó de Sofia partir, e vê o falecido bisavô durante o velório. Ainda assim, o filme quase abandona esse elemento ao final, priorizando a amizade das protagonistas e a evolução emocional de Sofia.
Em paralelo com a discussão sobre luto, A Natureza das Coisas Invisíveis surpreende ao trazer um retrato natural da transexualidade em um momento inesperado e com muita sensibilidade. A discussão não vira o centro da trama, atuando como uma parte orgânica do universo da história, ampliando seu discurso sobre rituais de passagem: deixar algo ir para que algo novo possa emergir.

Laura Brandão e Serena em cena de “A Natureza das Coisas Invisiveis”- Divulgação Vitrine Filmes
A direção aposta em planos estáticos e em tempos dilatados para que as atrizes brilhem, com destaque para a cena entre Camila Márdila e Aline Marta Maia: mesmo sem reconhecer a própria neta, a personagem de Maia protagoniza, ao lado de Márdila, um longo plano silencioso e repleto de subtexto, que traduz uma dolorosa “despedida em vida”.
Apesar da delicadeza do retrato, o filme tropeça no ritmo. Algumas cenas recebem mais ênfase do que deveriam e não encontram retorno narrativo, como o conflito entre Sofia e a mãe, forte quando ocorre, mas jamais retomado, enquanto o design de som também compromete a experiência, destacando ruídos externos, da mata ao ronco da bisavó, que dificultam a compreensão dos diálogos.
Ao final, A Natureza das Coisas Invisíveis é um pequeno e belo filme que se destaca pela sutileza e pelo olhar infantil que reconhece, na mesma medida, o fantástico e o doloroso, se tornando uma obra curiosa, terna e sensível, que acompanha o crescimento de meninas prestes a se tornarem grandes mulheres.
Distribuído pela Vitrine Filmes, A Natureza das Coisas Invisíveis estreia nos cinemas no dia 27 de novembro.
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