Dirigido por Kaouther Ben Hania, A Voz de Hind Rajab se estabelece como um dos filmes mais importantes da contemporaneidade
Duas das principais coisas que uma produção audiovisual deve transmitir ao seu espectador são emoção e empatia. Afinal, sem isso, a audiência não se conecta com a obra e começa a se importar mais com o que tem para jantar após sair do cinema. Estas são a base de A Voz de Hind Rajab, com a produção retratando com honestidade, frieza e, ao mesmo tempo, muito cuidado, um dos momentos mais agonizantes que a humanidade enfrenta nos dias atuais.
Logo no letreiro inicial, somos informados de que assistiremos a uma produção baseada em ligações e fatos reais, algo constantemente lembrado para sua audiência. Durante quase 90 minutos de tensão constante, acompanhamos a reconstituição da interação entre uma equipe de voluntários do Crescente Vermelho e uma menina de apenas seis anos, Hind Rajab, presa em um carro enquanto aguarda ser socorrida.

Cena de “A Voz de Hind Rajab”- Copyright Jour2Fête
Em nenhum momento de A Voz de Hind Rajab a câmera se estabiliza em um tripé. Os movimentos são fluidos e permitem uma maior aproximação com os personagens principais, com enquadramentos restritos que fazem o personagem crescer na tela, o que, por consequência, intensifica a tensão do espectador. Neste enquadramentos fechados, a agonia é nítida e ampliada por meio de diálogos que, apesar de por vezes redundantes, auxiliam no objetivo de Kaouther Ben Hania: imergir o público em uma zona de guerra onde existe a possibilidade de ajudar, mas onde essa ajuda é constantemente barrada por motivos mais complexos do que aparentam.
A agonia sentida na insistência de Mahdi em segurar o envio das ambulâncias até que exista uma rota segura e aprovada se equipara à que sentimos ao escutar a voz de Hind Rajab, sozinha, presa, rodeada de corpos e preocupada se voltará a ver sua mãe. O espectador é levado a refletir sobre essa realidade e a faca de dois gumes que persiste sobre ela, algo exposto inclusive em trocas de diálogo que questionam: se o governo não se importa com corpos nas ruas, por que se importaria com a voz de uma menina indefesa?
Rápido, indigesto e agonizante, A Voz de Hind Rajab não oferece descanso ou alívio ao seu espectador. Por conta do contexto e do cenário em que os personagens estão inseridos, a produção força uma reação emotiva, acompanhando uma tarde que parece não ter fim. A obra deixa sempre clara a dor, o sofrimento e os problemas enfrentados diariamente pela população de Gaza, apresentando uma crítica explícita e um final que, ao mesmo tempo em que se fecha em si, ecoa dentro de cada um na busca por respostas que não virão.

Cena de “A Voz de Hind Rajab”- Copyright Jour2Fête
Não há muito espaço para divagação. O filme é direto em seu retrato e em sua premissa, não abrindo margem para discussões do tipo “e se…”. Estrutura-se como uma produção que se encerra em si mesma, funcionando como o retrato de um acontecimento que serve de espelho para inúmeras outras interações que ocorrem com mais frequência do que imaginamos.
Inserido em um cinema frequentemente entendido como humanitário, por conta de sua visão de mundo centrada em problemas e discussões que afetam populações ao redor do globo, A Voz de Hind Rajab atua como um lembrete constante da dor e do sofrimento que ocorrem diariamente.
Vencedor do Prêmio do Júri na edição de 2025 do Festival de Veneza e representante da Tunísia no Oscar de Melhor Filme Internacional do ano de 2026, A Voz de Hind Rajab é distribuído pela Synapse Distribution e estreia nos cinemas no dia 29 de janeiro.
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