Dirigido por Letícia Simões, A Vida Secreta de Meus Três Homens é retrato íntimo sobre memória que parece significar muito para sua equipe, mas encontra dificuldades em estabelecer uma conexão mais ampla com o público
Desde os primeiros minutos, percebe-se uma estética assumidamente teatral em A Vida Secreta de Meus Três Homens, alinhada a uma vertente do cinema brasileiro contemporâneo que aposta no dispositivo cênico como ferramenta de reflexão. Filmes como Deuses da Peste (2025, Gabriela Luiza, Tiago Mata Machado) também exploram essa artificialidade como linguagem, muitas vezes transformando o cinema em espaço de experimentação íntima e quase confessional. Nesses casos, a encenação funciona como um exorcismo criativo, sobretudo para quem realiza. O risco, porém, é que esse processo se torne hermético, tornando a experiência mais desgastante do que envolvente para a audiência.
A estrutura de A Vida Secreta de Meus Três Homens se organiza em três atos, cada um dedicado a um homem fundamental na formação afetiva e simbólica da diretora: o avô Arnaud, ex-integrante do grupo de Lampião; o pai Fernando, boêmio e colaborador da ditadura militar; e o padrinho Sebastião, fotógrafo negro e homossexual. Por meio de entrevistas, relatos e material de arquivo, o longa constrói um mosaico que atravessa diferentes momentos da história do Brasil e evidencia como identidades são moldadas, e muitas vezes ocultadas, ao longo do tempo.

Cena de “A Vida Secreta de Meus Três Homens”- Divulgação Embauba Filmes
Visualmente, A Vida Secreta de Meus Três Homens assume seu caráter encenado. Paredes com pano preto, cadeiras, espelhos e objetos cenográficos compõem um espaço que remete ao palco teatral. A esses elementos somam-se imagens de arquivo, registros em película e sequências animadas. O resultado é uma atmosfera que evoca conversas de boteco e memórias reconstruídas, como se estivéssemos diante de fábulas íntimas narradas diretamente por seus protagonistas. Há, sem dúvida, uma riqueza de material humano e histórico.
No entanto, o ritmo se revela menos dinâmico do que a proposta sugere. Os longos monólogos, os planos deliberadamente amadores e determinadas situações que beiram o insólito contribuem para uma sensação de prolongamento excessivo. Cada ato se encerra de forma abrupta após o relato de seu personagem, seguido por imagens e dados históricos, seja sobre o cangaço, seja sobre a ditadura militar. A estrutura compartimentada reforça a ideia de capítulos isolados, mas compromete a construção de uma progressão dramática mais envolvente.
Há ainda uma dimensão que poderia ter sido mais aprofundada: o impacto dessas três figuras masculinas na formação da própria diretora. Embora o filme seja atravessado pela presença de Letícia, sua reflexão pessoal permanece relativamente distante. A obra parece menos interessada em confrontar essas heranças e mais focada em reconstruir o imaginário que ela criou sobre esses homens. Comentários como a suposta “energia feminina” do avô ou a menção à série The Sopranos como gatilho para discussão revelam um olhar subjetivo potente, mas que nem sempre encontra contraponto crítico.

Cena de “A Vida Secreta de Meus Três Homens”- Divulgação Embauba Filmes
Nesse sentido, A Vida Secreta de Meus Três Homens não é exatamente um retrato desses três indivíduos, mas da imagem que deles sobrevive na memória da diretora. Essa escolha é legítima e coerente com a proposta ensaística, porém a insistência na teatralidade e na autorreferência acaba limitando o alcance emocional da narrativa.
A Vida Secreta de Meus Três Homens é lançado como uma obra de intenções densas e escolhas formais interessantes. Ainda assim, sua potência parece contida por um excesso de introspecção. O que poderia alcançar um ápice catártico permanece como um exercício estético que, embora relevante em suas reflexões, raramente encontra o chão necessário para transformar intimidade em experiência compartilhada.
Distribuído pela Embaúba Filmes, A Vida Secreta de Meus Três Homens estreia nos cinemas no dia 05 de Março.
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