Dirigido por David Cronenberg, O Senhor dos Mortos viaja dentro de sua própria grandiosidade e no espelho autoral da vida de seu diretor.
Ator, diretor, roteirista e produtor, David Cronenberg já demonstrou diversas vezes sua força não apenas dentro do gênero do body horror. Apesar de seu mais recente filme, O Senhor dos Mortos, ser uma de suas produções mais frias e sobrecarregadas, também é uma de suas obras mais autorais e herméticas.
O próprio diretor parece mais interessado em expurgar seus demônios internos do que em estruturar uma narrativa realmente coesa, o que dificulta a compreensão do público.
Em sua discussão sobre luto e memória, O Senhor dos Mortos apresenta Karsh, Vincent Cassel, um empresário inovador que, consumido pela morte de sua esposa Becca, Diane Kruger, desenvolve a GraveTech, uma tecnologia que permite aos vivos monitorar seus entes queridos em suas mortalhas. Tudo muda quando, após atos de vandalismo nos túmulos ligados à empresa, Karsh se vê mergulhado em uma espiral de crises e conspirações que envolve não apenas Terry, a irmã sósia de Becca, mas também seu ex-marido Maury, Guy Pearce.

Vincent Cassel e Sandrine Holt em cena de “O Senhor dos Mortos”- Divulgação
Se o filme focasse apenas no debate ético em torno de uma tecnologia como a GraveTech, a narrativa poderia seguir diversos caminhos: do body horror ao psicológico. No entanto, essa é uma das partes menos exploradas da obra. Em vez disso, abre-se espaço para discussões sobre teorias da conspiração envolvendo russos e chineses, além de acompanhar um Karsh atormentado, um possível retrato do próprio Cronenberg, que se recusa a aceitar a morte da esposa, chegando ao ponto de iniciar um relacionamento com sua irmã gêmea.
Esse expurgo emocional de Cronenberg é compreensível. Em entrevista à Variety, o próprio diretor afirmou que o filme não era apenas um exercício técnico, mas também emocional. Ao observarmos o simbolismo das mortalhas, que revelam aquilo que deveria permanecer oculto, encontramos uma reflexão potente que poderia servir como o verdadeiro foco de O Senhor dos Mortos. No entanto, essa ideia permanece apenas na superfície.
Carregado de diálogos incessantes e interações muitas vezes vazias, o filme encontra poucos momentos de respiro. Até mesmo durante o ato sexual entre Karsh e Terry, a verborragia permanece presente, muitas vezes funcionando como palavras vazias. Curiosamente, momentos como as conversas entre Karsh e sua IA, ou os pesadelos de body horror que assombram o empresário, são muito mais interessantes.
Na medida que O Senhor dos Mortos passa tempo demais focando naquilo que nem sequer deveria existir, a narrativa cria tramas paralelas em que poucas são realmente desenvolvidas de forma satisfatória. Não importa o quanto os personagens verbalizem o que estão sentindo ou pensando, a sensação de profundidade raramente se concretiza.

Vincent Cassel e Guy Pearce em cena de “O Senhor dos Mortos”- Divulgação
As simbologias são claras: não deixar os mortos descansarem, a incapacidade de se desapegar do passado e os problemas que surgem de um luto que se recusa a terminar. A lógica é simples, enquanto mantivermos os mortos próximos, eles nunca desaparecerão completamente. No entanto, O Senhor dos Mortos não oferece análises profundas sobre essas ideias, preferindo se concentrar nas pirações, desconfortos e friezas características do cinema de Cronenberg. A estética pastel e sem vida, os pesadelos de body horror e as sucessivas reviravoltas que, por vezes, lembram uma novela indicam uma falta de foco em um filme que poderia ter se beneficiado de uma abordagem mais contida, e consequentemente, mais eficaz.
O Senhor dos Mortos integra a Mostra Farol, panorama que será realizado no CineSesc e no Sesc Digital entre os dias 20 de março e 2 de abril. A programação conecta filmes inéditos e obras inaugurais do cinema mundial em uma seleção de mais de 30 títulos, incluindo oito produções nacionais, clássicos como Dente Canino (2009, Yorgos Lanthimos), e 14 filmes inéditos, entre eles o novo trabalho de Cronenberg.
Ao longo da Mostra Farol também serão realizadas aulas magnas de roteiro com nomes importantes do cinema nacional, como Gabriel Martins, Laís Bodanzky e Marcelo Caetano, além do curso Alice Guy-Blaché e a invenção do cinema narrativo, ministrado por Vivian Malusá.
Todas essas e outras informações podem ser encontradas no site oficial do Sesc SP.
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