A extensão dos ecossistemas campestres no planeta pode estar significativamente subestimada, alterando diretamente a forma como se calcula o estoque de carbono global e, consequentemente, as estratégias de enfrentamento da crise climática. Um estudo internacional com participação da Unesp aponta que esses ambientes ocupam uma área maior do que se imaginava.
Apesar de menos valorizados no imaginário coletivo, dominado por florestas densas, os ecossistemas campestres — como o Cerrado, o Pampa, as savanas e a tundra — desempenham papel central no equilíbrio ambiental. Com vegetação predominantemente baixa, esses ambientes receberam historicamente menos atenção científica, o que resultou em lacunas até mesmo em dados básicos, como sua extensão territorial.
As estimativas anteriores variavam amplamente, entre 5% e 40% da superfície terrestre. Para reduzir essa incerteza, um grupo de 157 pesquisadores realizou um levantamento global combinando dados de campo e sensoriamento remoto. A pesquisa analisou 60 regiões ao redor do mundo.
O resultado indica que as áreas campestres ocupam cerca de 30,1 milhões de km², o equivalente a 22,8% da cobertura terrestre. A bióloga Lucíola Santos Lannes, da Unesp, participou do estudo liderando a coleta de dados no Cerrado, em Mato Grosso do Sul.
“O estudo mostrou que existem erros consideráveis nos mapas que tínhamos até então sobre a cobertura de áreas campestres. No final, constatamos que isso influencia de forma relevante nas estimativas dos estoques de carbono no nosso planeta”, afirma a pesquisadora.
Ecossistemas campestres e o carbono global
A revisão desses números tem impacto direto na compreensão do ciclo do carbono, um dos principais eixos no debate climático. Ecossistemas campestres funcionam como importantes sumidouros naturais, capturando carbono da atmosfera e armazenando-o na vegetação e, principalmente, no solo.
“Sabemos que as áreas campestres possuem um papel importantíssimo no ciclo do carbono. Mas, se as estimativas quanto às áreas desses espaços forem imprecisas, não se pode chegar a uma dimensão real do volume de carbono que elas capturam”, explica Lannes.
Dados anteriores da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura indicavam que esses ambientes respondiam por cerca de 20% dos estoques globais de carbono. Com a nova estimativa de área, esse número pode chegar a aproximadamente 30%, ampliando a relevância desses biomas nas estratégias de mitigação das mudanças climáticas.
Ecossistemas campestres e a urgência científica
A pesquisa também evidencia uma lacuna histórica no estudo desses ambientes, frequentemente negligenciados em comparação com florestas. A correção dos mapas e das estimativas reforça a necessidade de ampliar o olhar científico e político sobre esses territórios.
Os resultados foram publicados na revista científica Nature Ecology & Evolution e contribuem para redefinir o papel dos ecossistemas campestres no cenário ambiental global, destacando sua importância não apenas ecológica, mas também estratégica no enfrentamento da crise climática.
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