Dirigido por Olivier Assayas, O Mago do Kremlin ambiciona atravessar quase três décadas de geopolítica russa, mas que, ao final, deixa uma sensação incômoda.
Existe uma curiosidade quase inerente sobre os bastidores do poder: os encontros secretos, as decisões tomadas longe do olhar público, os jogos de influência que moldam o mundo. A cultura pop já explorou isso de forma caricata, como em episódios de Pinky e o Cérebro (1994, Tom Ruegger), onde líderes globais agiam como vilões exagerados e infantis. Em contraste, produções mais recentes como Vice (2019, Adam McKay) buscaram o humor e a ironia como forma de humanizar essas figuras, aproximando-as do espectador por meio de linguagem acessível, ridículo e ritmo dinâmico.
É justamente nessa comparação que O Mago do Kremlin revela suas fragilidades.
Assim como o filme de Adam McKay, a obra de Assayas opta por retratar um líder político, no caso Vladimir Putin, a partir de um olhar indireto. Aqui, acompanhamos Vadim Baranov, um conselheiro fictício inspirado em figuras reais, que transita entre o teatro, a mídia e os bastidores do governo russo. No entanto, onde Vice encontra leveza e ironia para traduzir estruturas complexas de poder, O Mago do Kremlin se perde em sua própria densidade.

Paul Dano e Jude Law em cena de “O Mago do Kremlin”- Divulgação Imagem Filmes
O filme é construído sobre uma base excessiva de narração. Ao longo de cerca de 150 minutos, Vadim guia o espectador por uma Rússia em transformação, dos anos 90 até 2019, misturando reflexões pessoais, contexto histórico e observações políticas. Há, sem dúvida, momentos interessantes, especialmente quando o longa aborda a relação entre política e espetáculo, ou a construção de narrativas públicas como ferramenta de poder.
Mas há um problema central: o filme fala muito sobre poder, e mostra pouco como ele realmente opera.
Vadim permanece uma figura opaca do início ao fim. Não compreendemos plenamente seu papel no governo, suas ações concretas ou seu impacto na ascensão de Putin. Em vez disso, o que temos é um fluxo constante de pensamentos que frequentemente parecem mais interessados em sugerir profundidade do que em desenvolvê-la. Essa ambiguidade poderia ser uma escolha narrativa instigante, mas aqui resulta em distanciamento e frustração.
Esse afastamento é reforçado pela estética do filme. A fotografia fria, a direção sóbria e a trilha pouco marcante contribuem para um tom deliberadamente distante, que raramente convida o espectador a se envolver emocionalmente. Soma-se a isso um ritmo irregular e uma estrutura repetitiva, que tornam a experiência ainda mais exaustiva.

Alicia Vikander em cena de “O Mago do Kremlin”- Divulgação Imagem Filmes
Curiosamente, há momentos em que O Mago do Kremlin parece flertar com a sátira, afinal, temos um Putin com forte sotaque britânico, mas Assayas nunca abraça completamente essa possibilidade. Ao optar por tratar tudo com excessiva seriedade, o longa perde a oportunidade de explorar a ironia inerente ao próprio cenário que retrata.
O resultado é um filme que exige do público um repertório prévio considerável, mas que oferece pouco em troca. Ao final, resta a impressão de que acompanhamos uma longa exposição de ideias e eventos sem que se construa uma compreensão sólida de seus personagens ou de suas implicações.
O Mago do Kremlin tinha potencial para ser um retrato instigante sobre poder, imagem e manipulação, com uma possibilidade grande de estruturar uma crítica política direta. No entanto, ao se apoiar demais na verborragia literária e de menos na dramatização, acaba se tornando um exercício distante, e paradoxalmente, superficial.
Distribuído pela Imagem Filmes, O Mago do Kremlin chega aos cinemas no dia 09 de abril.
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