Dirigido por Pauline Loquès, Nino de Sexta a Segunda utiliza uma atmosfera lenta e simbólica para discutir relações humanas e o impacto que elas exercem em nossas vidas.
Filmes em que o personagem vaga sem rumo por uma grande cidade, observando, contemplando e interagindo com desconhecidos, são frutos diretos do cinema moderno que emergiu no pós-guerra. Ao romper com a estrutura clássica dos três atos, essas obras se mostram menos preocupadas com jornadas épicas e mais interessadas em traduzir sentimentos e estados emocionais. Uma das maiores expoentes desse movimento é Agnès Varda, responsável por clássicos como Cléo das 5 às 7 (1962).
Estruturar uma crítica de Nino de Sexta a Segunda sem mencionar Varda seria uma lacuna evidente. Apesar dos paralelos claros, especialmente no tema do câncer e nos encontros com desconhecidos, o filme de Pauline Loquès se estende para além da proposta quase em tempo real de Varda. Ainda assim, o sentimento final converge: acompanhamos um protagonista em desespero que encontra apoio onde menos espera.

Théodore Pellerin em cena de “Nino de Sexta a Segunda”
|Copyright BLUE MONDAY PRODUCTIONS
Nesse contexto, a influência do cinema moderno se manifesta de forma sutil. A jornada de Nino é contida, mas permeada por pequenas interações que ecoam emocionalmente, mesmo que não envolva grandes catarse. A perda da chave de casa funciona como dispositivo narrativo simples, porém eficaz, abrindo caminho para encontros que não existiriam de outra forma.
Em contraste com o caos de Depois de Horas (1985, Martin Scorsese), Nino de Sexta a Segunda encontra força na contemplação e no naturalismo. Pelo olhar quase passivo do protagonista, conhecemos personagens que surgem e desaparecem rapidamente, deixando apenas rastros, com duas exceções marcantes: Zoé e Sofian.
Zoé, amiga de escola, aparece no início e retorna ao final como um elo de reconexão, permitindo que Nino finalmente enfrente a decisão de armazenar seu esperma antes do tratamento contra o câncer, um dos conflitos centrais da narrativa. Já Sofian representa o apoio silencioso: sua presença, por vezes sugerindo algo além da amizade, revela alguém genuinamente preocupado com o protagonista.
Participações breves, como o misterioso homem da casa de banhos interpretado por Mathieu Amalric, ou a mulher da festa em sua própria jornada de fertilidade, contribuem para enriquecer o filme sem romper seu tom contido. Em pouco mais de 90 minutos, a obra constrói um ritmo deliberadamente lento, sustentado por fotografia simples, trilha discreta e escolhas pontuais de músicas que reforçam sua atmosfera.

Salomé Dewaels em cena de “Nino de Sexta a Segunda”
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Nino de Sexta a Segunda não pretende reinventar o cinema, residindo aí sua maior qualidade. O filme aposta na honestidade e na delicadeza para lembrar que, muitas vezes, estamos tão imersos em nossas próprias bolhas que ignoramos o impacto que podemos ter na vida do outro.
Pode soar utópico em alguns momentos, mas é justamente nessa simplicidade que o filme encontra sua força. Nino é, acima de tudo, alguém genuinamente bom, que, em meio ao desespero, descobre apoio onde antes não enxergava, como se sua jornada fosse guiada por uma necessidade quase invisível de preservar a esperança.
Remetendo diretamente ao cinema moderno da metade do século XX, é curioso notar que o subtítulo de Sexta a Segunda existe apenas na versão brasileira, enquanto internacionalmente o filme é apresentado apenas como Nino. Ainda assim, essa escolha local reforça a conexão com a tradição evocada por Varda, antecipando o tom da obra: lento, poético, simples e reflexivo.
Distribuído pela Filmes do Estação, Nino de Sexta a Segunda estreia nos cinemas em 07 de maio de 2026.
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