Criada por Bruce Miller, Os Testamentos: Das Filhas de Gilead apresenta um início de tom assumidamente adolescente para uma produção que promete revisitar, sob uma nova perspectiva, o impacto do regime autoritário estabelecido.
Comparar Os Testamentos com uma série como Gen V (2023, Eric Goldberg), derivada de The Boys (2019, Eric Goldberg), é ao mesmo tempo inevitável, e, em certa medida, uma comparação até cruel. Ambas nascem como extensões de universos televisivos de enorme apelo popular, preservando seus temas centrais, mas adotando uma abordagem mais jovem, especialmente a partir da escolha de protagonistas adolescentes e de uma narrativa mais voltada à formação de identidade.
No caso específico de Os Testamentos, a decisão de ambientar a trama em um colégio interno dentro de Gilead, acompanhando personagens como Agnes e Daisy, oferece um novo ponto de entrada para esse universo. Ao mesmo tempo em que mantém vínculos com a obra original, sobretudo por meio da presença de figuras como Tia Lydia, a série constrói uma estética própria. A dicotomia entre roxo e branco estabelece uma atmosfera quase onírica, contrastando ironicamente com a brutalidade de uma distopia que não se oculta do público, e para as próprias personagens, já apresenta sinais de desgaste e fraquezas.

Chase Infinity e Lucy Halliday em cena de “Os Testamentos”- Divulgação Hulu
O universo de The Handmaid’s Tale permanece vigente, mas esse novo olhar traz um frescor necessário para uma narrativa que, após seis temporadas, já demonstrava sinais de esgotamento. Desde os primeiros momentos, a série estabelece seu recorte adolescente também por meio da trilha sonora, que transita entre Blondie e The Cranberries, evocando uma sensação de nostalgia, encantamento e desilusão.
Esse sentimento encontra eco na figura de Natasha Rostova, de Guerra e Paz (1867, Liev Tolstói). No início da obra, Natasha, imersa em sua própria bolha, enxerga a guerra como algo belo e heroico. De maneira semelhante, as jovens de Gilead são retratadas como completamente inseridas nas normas do regime, incapazes de reconhecer seus horrores. Vibram diante de punições violentas, como a mutilação de um homem, e almejam o casamento como a realização de uma vida ideal.
Para o público, no entanto, essa ilusão é evidente. Seja pelo contato prévio com The Handmaid’s Tale, seja por uma compreensão mais ampla do mundo, sabemos que esse ideal não passa de uma construção frágil.
Não por acaso, as duas músicas que marcam o início da série: “Dreaming” (1979, Blondie), e “Dreams” (1992, The Cranberries) reforçam essa dimensão de fantasia e idealização. Se a obra original operava no campo do pesadelo, Os Testamentos se constrói, ao menos inicialmente, como um sonho cuidadosamente fabricado.

Chase Infinity em cena de “Os Testamentos”- Divulgação Hulu
É justamente na inevitável ruptura dessa ilusão que reside a potência da série. Ao acompanhar o desmoronamento dessa visão idealizada, a narrativa aponta para o colapso de um regime amplamente explorado ao longo dos anos, agora revisitado por meio de novas personagens e de uma identidade própria. Mais do que revisitar Gilead, a série parece interessada em expor os mecanismos que sustentam sua perpetuação, e sobretudo, as fissuras que podem levá-lo ao fim.
Ágil em sua execução, Os Testamentos surge como uma proposta de renovação dentro de um universo que corria o risco da repetição. Em uma indústria frequentemente marcada por continuações pouco ousadas, a série se destaca ao propor não apenas uma expansão, mas uma reinterpretação de seu material de origem.
Com os três primeiros episódios já disponíveis no Disney+, a série terá lançamentos semanais às quartas-feiras, com desfecho previsto para 27 de maio de 2026.
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